quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Padaria São João fecha as portas após 59 anos*

Tradicional confeitaria no centro de Capão da Canoa encerrou suas atividades na última quinta-feira (23)

Lorenço Oliveira

Na prateleira dos cigarros, não há mais maços. No balcão envidraçado da caixa registradora, poucas caixinhas de chicletes e doces repousam. Nos refrigeradores resta uma dúzia de bebidas. Pelas duas portas do estabelecimento, localizado na esquina das avenidas Paraguassú e Poti, entram e saem pessoas carregando sacolas de pães, como de praxe. Poucas sabem que será a última vez que sairão dali com cacetinhos frescos, bolos de cenoura, roscas de polvilho, tortas, frios fatiados e outros produtos. Despedem-se sem saber. Imaginam que no dia seguinte terão o mesmo pão francês para o café da manhã. A tarde ensolarada de 23 de outubro de 2014 passa como se fosse uma quinta-feira qualquer. Mas não é. Logo mais, às 20h15, as portas serão fechadas para não abrirem mais. A mais antiga e tradicional padaria do centro de Capão da Canoa, a São João, se despede dos caponenses, depois de 59 anos de atividade.

 A primeira padaria São João foi aberta em 1955, na avenida Poti, muito próximo da esquina com a avenida Paraguassú, onde João Alves Diniz, o baiano, construiu o futuro prédio. Foto: Acervo pessoal da família Diniz.

A decisão de encerrar os trabalhos não é nova. Há seis anos, quando faleceu João Alves Diniz, o baiano, que fundou a padaria em 1955, os filhos cogitaram a ideia de fechar o local. No entanto, continuaram. Depois, há dois anos, quando um dos irmãos, Sérgio, também faleceu, pensou-se novamente em terminar os serviços. “Neste ano veio uma boa proposta para vender o prédio e acabamos aceitando, em acordo conjunto entre todos”, explica uma das proprietárias Maria Elisa Diniz, conhecida por todos como Mariza da São João.

A construção do prédio data por volta do final dos anos 1960, quando Capão da Canoa ainda fazia parte de Osório. O edifício de três andares, onde vive parte da família Diniz, foi vendido para uma construtora local do município. O ponto de esquina será alugado até a entrega do imóvel em junho de 2015. Outros dois estabelecimentos do prédio, um açougue na avenida Poti e um chaveiro na avenida Paraguassú devem permanecer abertos até o ano que vêm. Para o dono do açougue, Vilmar Manuel Marques, de 57 anos, o fechamento da São João afetará o seu negócio que tem mais de 30 anos. “Vou esperar para ver como será o movimento, porque o meu cliente é o mesmo da padaria”, comenta receoso o açogueiro. Já o chaveiro, há dez anos no ponto, ainda não tem o futuro endereço.  

Na década de 1960, a padaria espichou seu prédio até a esquina avenida Paraguassú. Nesta época, os sorvetes artesanais do pai da família, João Alves Diniz, o baiano, já eram sucesso na região. Foto: Acervo pessoal da família Diniz.

“Cansaço”, definiu Mariza, de 63 anos, os quais 50 dedicou ao trabalho na confeitaria. Ela é a segunda mais velha dos seis filhos de João. “Eu tinha nove anos e o Sergio, meu irmão abaixo de mim, tinha sete, quando vendíamos na rua os sonhos [de doce de leite] que meu pai fazia no antigo Hotel Rio-grandense”, relata a confeiteira. Com a morte da mãe, Elvira, em 1964, aos 48 anos, devido complicações no coração, Mariza acabou assumindo a criação dos irmãos muito cedo, com apenas 12 anos de idade. “Não tenho hobby. Tudo que eu fiz na vida foi voltado para a padaria”, conta Mariza, que não se casou e nem teve filhos.

Uma pequena casa de alvenaria na avenida Poti, quase esquina com avenida Paraguassú, foi o primeiro endereço da São João. “Gêneros alimentícios em geral”, anunciava a pintura na parede. “Nessa época, o baiano (João Alves Diniz) usava forno de barro para assar os pães”, recorda Elisabete Diniz, de 60 anos, sendo 37 deles vividos dentro padaria. “Bete”, como é conhecida, é viúva de Sérgio e permaneceu trabalhando com a família depois da morte do marido. “Quando eu cheguei para trabalhar aqui, se vendia de tudo dentro da padaria, como um mini-mercado”, relata.

Em 1960, a casa foi estendida até a esquina da avenida Paraguassú. Nessa época, baiano começou a produzir sorvetes artesanais que eram um sucesso na praia. “O sorvete de abacate era o melhor da praça”, lembra o padeiro mais antigo da São João, Ildo Luis Nunes, no ofício desde 1973.

Entre os herdeiros de baiano, no total oito filhos, seis do primeiro casamento e dois do segundo, todos passaram pela padaria, ajudando de alguma forma. Dos quatro filhos de Bete, apenas Marilia, de 26 anos, seguiu a tradição e ficou até o fechamento. “Eu cresci brincando e ajudando minha mãe e meus tios aqui dentro da padaria”, explica a neta de baiano. Marilia conta que pela idade da padaria, muitos clientes cresceram frequentando o local e hoje trazem filhos para visitar a padaria. “Não adianta. A gente tenta esconder um pouco a emoção, mas acaba se apegando ao lugar e aos clientes”.

Na década de 1970, o prédio tornava-se um ponto de referencia em Capão da Canoa, que no verão vê sua população triplicar. Cena comum do verão era a fila do pão francês sair pela calçada. Foto: Acervo pessoal da família Diniz. 

Nenhum aviso nas portas do estabelecimento informou que a confeitaria seria fechada. Há cerca de um mês, o boato começou a correr de boca-a-boca. Aberta de segunda a segunda, inclusive em feriados, os clientes mais fiéis e amigos da família já tinham conhecimento do fato. Mas a maioria foi pega de surpresa quando Marilia, que estava sentada no caixa, dava a notícia ao devolver o troco: “Então, hoje é o último dia”, anuncia a jovem. “Sério? Mas onde eu vou comprar meu pão agora?”, indaga o aposentado de 80 anos. “É uma pena! O atendimento era muito bom”, comenta o senhor, que há 12 anos é cliente da padaria. Outro cidadão, menos elegante, para em frente ao caixa: “Me vê um Marlboro azul!”, “Não temos mais cigarro”, responde Marilia. “Ah! Não tem? Vão quebrando devagarinho então”, brinca o homem, que sai porta fora. Marilia ri. Até porque, não há mais nada a dizer.

Embora o fechamento tenha desagradado muitos clientes, Mariza é enfática: “Chega uma hora que é preciso parar e descansar”. E, de fato, não há outra motivação. Durante toda a tarde do último dia de funcionamento, o movimento das vendas foi igual a qualquer dia de inverno. “Três fornadas pela manhã, mais cinco à tarde”, explica Mariza. Ao todo, são mais de três mil cacetinhos assados todos os dias no forno à lenha “Ultra-vulcão”. No verão, a produção triplica, pois a fila do pão chega a sair para a rua e se estende pela calçada.

Para Mariza, o sucesso da São João se dá pela tradição do produto. O pão francês, carro-chefe da padaria, é assado da mesma forma há anos. “Nunca vendemos pão congelado. É mais simples de fazer, mas não é a mesma coisa”, argumenta a confeiteira. E os clientes concordam. Daqui pra frente, o pão não será mais o mesmo.

*Matéria publicada originalmente na página 4 da edição de 30 de outubro de 2014 do jornal Momento (Osório-RS).

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Por dentro da história

Entre tantas causas, manifestantes pediram mais recursos para melhorar a qualidade da educação no país

Quatro estudantes de Jornalismo e um desafio: deixar a posição tradicional de repórter de lado e misturar-se aos manifestantes em Porto Alegre no dia 20 de junho para montar um relato íntimo do movimento. Apenas com os sentidos como ferramenta de apuração, sem blocos, gravadores ou entrevistas formais, buscavam um ponto de vista alternativo. Nestas páginas, a história de quem mergulhou na marcha que parou a região central da Capital. Quatro visões que se completam e questionam os limites da objetividade jornalística
Por volta das 17h30min do dia 20 junho, ao lado dos leões da fachada da Prefeitura de Porto Alegre, um grupo de punks e anarquistas, alguns com o rosto escondido por camisetas e cachecóis, espalhava um forte cheiro de maconha pelo Paço Municipal. Instantes depois, um deles, visivelmente alterado, iria para o meio da multidão tentar conscientizá-la, segurando em uma das mãos uma garrafa de vodka quebrada.
Com rostos encobertos para dificultar a identificação da polícia, portando bandeiras negras e vermelhas, além de cartazes de repúdio à imprensa, os anarquistas, quando acompanhados de perto, não podem ser reduzidos à figura de vândalos, arruaceiros e baderneiros. Ao lado do movimento era possível perceber que, embora muito questionado, ao menos parte dos integrantes possui, sim, projetos e ideais.
Um grupo, que se denominava Frente Autônoma, parecia mais sério. Em meio à multidão com causas difusas e confusas, um componente distribuía uma simples folha de papel A4, ou melhor, a publicação Opinião Anarquista, da Federação Anarquista Gaúcha (FAG). Lia-se no papel os anseios daqueles que só aparecem na mídia como protagonistas da depredação: “Abrir a caixa preta da patronal do transporte coletivo!”, “Democratização da mídia!”, ”Protesto não é crime!”, entre outras palavras de ordem.
Perto dali, ao ser perguntada sobre os panfletos que distribuía, uma brigadiana respondeu que era um recado em defesa dos manifestantes no ato. “E vai ter tropa de choque?”, questionou-se. “Claro, sempre tem uns arruaceiros.”
O clima parecia de Copa, com caras pintadas de verde e amarelo, bandeiras do Brasil e cornetas. Um grupo corria e ria enquanto bradava “Fora PT”. Outros, não tão bem humorados, pregavam o “Acabou o amor, isso aqui vai virar Turquia”. Vendedores ambulantes aproveitavam o tempo para vender guarda-chuvas e capas, além de água, refrigerantes, lanches e até bandeirinhas. Alguns adolescentes carregavam vinho em garrafa de plástico e chamavam os amigos para ir à prefeitura. Outros optavam por levar cervejas ou consumir substâncias alternativas.
Entre estes últimos, surgiu até a tentativa do coro “Dilma Rousseff, legaliza o beck”, sem sucesso, talvez porque os companheiros desta reivindicação estivessem na outra ponta da manifestação, ou porque o grito de guerra surgiu nas bordas do movimento, sob a proteção de um prédio de esquina, onde se escondiam da chuva umas 15 pessoas. Ao ecoar, o chamado foi abafado pela multidão interessada em outros assuntos.
***
Às 18h30min, surgiam os primeiros coros que propunham uma rota para a passeata: “Anda! Anda! Anda!” e “Quem não anda quer aumento!”. Este último grito de ordem era reeditado para diversas situações. Quando o Hino Rio-Grandense surgiu, uma garota gritava sozinha: “Ei, reaça! Vaza dessa marcha!”.
Para onde iriam? Num primeiro olhar, isso parecia ser decidido literalmente no grito. Alguns gritavam “Borges, Borges!”, indicando a Avenida Borges de Medeiros, outros pediam que a massa fosse pela Júlio de Castilhos. Em meio a tudo isso, porém, os anarquistas da Frente Autônoma conversavam entre si e definiam que iriam por esta última via, tomariam o Túnel da Conceição e caminhariam pela Avenida João Pessoa. O grupo acelerou o passo, tomou a frente e, repentinamente, passou a ser seguido pela multidão.
Ao lado da prefeitura, no cruzamento com a Siqueira Campos, em um princípio de briga, a massa se dividiu. “Volta! Volta! Eles são do PT”, urrava um sujeito baixinho, entroncado, que tentava convencer o grupo a permanecer em volta da prefeitura. No entanto, anarquistas e a tal direita reacionária uniam-se na hora de cantar “Sem partido! Sem partido!” para os militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), abominado por quase todos que ali estavam. Pouco se cantava pautas concretas, mas houve vibração quando circulou o boato de que uma bandeira do PT teria sido rasgada. Enquanto uma dezena de pessoas caminhava por cima do arco da estação Mercado do Trensurb, 18 cavalarianos da Brigada Militar, parados sob o mesmo monumento, observavam o povo que tomava de forma pacífica a avenida.
***
Por um momento, a cena parecia um grande evento para o público jovem, como o Planeta Atlântida. Os chapéus de momo vermelhos e pretos e os narizes de palhaço tentavam lembrar que a reunião tinha outra motivação. Cartazes que se desfaziam na chuva, cartolinas envoltas em plástico e até os guarda-chuvas serviam de apoio para frases como “Quem não tem virtude acaba por ser escravo” e “Parem de roubar que vai melhorar”. O grito dos indignados acompanhava o canto da hora: “Ei, Pelé, vai tomar…”. Perto das 19h, a massa atiçava as câmeras e os celulares de quem ainda estava pelo Centro, mas não protestava: tinha apenas o interesse em obter seu próprio registro das faixas, que, entre aqueles que agitavam bandeiras negras e vermelhas, continham dizeres como “Não intimidar, não desmobilizar! Rodear de solidariedade os que lutam!”.
Em frente à Estação Rodoviária e ao Templo Central da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), bastante criticada, novos grupos se uniam à marcha. Em um determinado momento, pouco antes da entrada do túnel, panos brancos apareciam nas janelas dos prédios em volta. O refrão “Quem apoia pisca a luz” convidava os moradores a participarem do protesto. Quando uma turma percebeu que, em uma das janelas, as luzes eram coloridas, os gritos ganharam malícia: “Vem pra rua e fica nua” e “Quem apoia mostra os peitos” eram direcionados às prostitutas que abanavam sem intimidação.
Dentro do túnel, a fumaça de sinalizadores preenchia o espaço, que mais se parecia com uma caixa amplificada de coros: “O povo acordou!”. A semelhança com uma torcida de futebol saindo de um estádio era nítida. Um espetáculo que exigia estar na escuta de um radinho, como em uma partida de futebol no estádio. Ninguém sabia direito o que se passava na linha de frente do manifesto.
Quando o primeiro barulho de bomba foi ouvido, um homem barbudo tranquilizou a Frente Autônoma: “Essa é das nossas”. Enquanto milhares, muitos deles envoltos na bandeira do Brasil ou do Rio Grande do Sul, gritavam o Hino Nacional, os seguidores de Bakunin, ícone do anarquismo, respondiam com “Nossa pátria é o mundo inteiro”. E a disputa seguia: de um lado “O gigante acordou!”, do outro “Só você não viu, a periferia nunca dormiu”, até que cruzaram o túnel e pararam de cantar em respeito aos internados na Santa Casa. A ordem era de silêncio: “É hospital, turista”.
***
Do outro lado da Santa Casa, enquanto os manifestantes pediam silêncio, uma parte virou-se ao contrário da marcha, determinada a chegar ao Palácio Piratini. Por um momento, as pessoas não sabiam o roteiro a seguir. Gritos  sugeriam a RBS. Quem seguiu pela Avenida João Pessoa, encaminhou-se para a Ipiranga, provavelmente para chegar ao prédio da Zero Hora. Um sujeito escalou a primeira parada de ônibus da João Pessoa, para expor a bandeira anarquista. Houve vaias.
Nos protestos anteriores, o caminho para a João Pessoa significava um fim certo. “Temos que voltar! É emboscada”, gritava um homem de meia idade, desmascarado, que tentava explicar a conspiração: “Tem gente infiltrada levando o pessoal para (avenida) Ipiranga, onde está o (batalhão de) choque”. O boato de policiais infiltrados no front não se confirmou, mas a batalha era certa.
No final da avenida, o conflito começou. A partir daí, o grupo anarquista recolhia cartazes e bandeiras e partia para o combate. Como se ignorassem as várias bombas de gás lacrimogêneo, a ordem permanecia sempre a mesma: não recuar. Além de um helicóptero que voava baixo, a fumaça e o barulho de bombas de efeito moral dominaram o protesto. As pessoas corriam, muitos pediam para resistir. Mas a pressão exercida pelas bombas fazia com que uns poucos voltassem. A marcha se dividiu novamente, e uma parte fez o trajeto inverso, sem saber que rumo tomar.
***
Por volta das 21h, a esquina das avenidas Ipiranga com João Pessoa estava envolta em fumaça branca, provocada pelas bombas da tropa de choque. Um manifestante sufocado lavava o rosto com água das poças formadas pela chuva no asfalto. Aqueles que carregavam vinagre dividiam com quem precisasse aliviar os efeitos do gás. O protesto do contra tudo levou muitos para aquela esquina, sem que soubessem ao certo o motivo. Alguns falavam em emboscada, estratégia para desvirtuar o caminho da marcha. A indignação era coletiva, as causas, não. As pessoas caminhavam lado a lado, mas não juntas.
Quem voltava para a Cidade Baixa, na esquina da Lima e Silva com a República, enxergava a cavalaria da BM passando pela João Pessoa. Próximo a um bar, um rapaz tentava depredar um contêiner de lixo e era vaiado pelos poucos que o cercavam. Em plena quinta-feira, às 22h, as ruas do bairro estavam quase vazias. Parecia madrugada.
No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas, a dita Esquina Democrática, vândalos lançavam explosivos, depredavam e saqueavam uma loja. Três policiais da cavalaria passaram no momento e seguiram sem dar atenção ao saque. Em outro ponto da avenida, uma jovem encenava uma performance. Apoiada sobre os joelhos, ela levava as mãos ao rosto, simulando choro. Em suas costas, um cartaz que dizia: “Não é o seu gás lacrimogêneo que me faz chorar”.
A polícia montada fazia uma varredura nos locais que ainda concentravam grupos de protestos. Os que restavam no Centro se dirigiram para o ponto onde o protesto se originou, a prefeitura. Em frente à sede do governo municipal, a tropa de choque fazia uma barreira.
Depois de alguns minutos de confronto, a tropa de militares separou-se. No alto da Borges, cerca de 25 policiais montados. Na Júlio de Castilhos, a tropa de choque se posicionava, assim como na prefeitura e ao lado do Mercado Público. Toda a região foi cercada pela polícia. As bombas de gás eram lançadas, e o deslocamento ficou difícil. O cerco da polícia dispersou os remanescentes. Não era possível passar pela barreira em grandes grupos.
Numa estação de ônibus do Mercado Público, um jovem era socorrido por dois bombeiros. Havia passado mal depois de ser atingido por bombas de gás. Logo ao lado, além das barreiras policiais, um cidadão vigiava suas frutas e legumes no abrigo da Praça Parobé. As ruas estavam desertas, e táxis não circulavam. O vendedor de cabelos brancos contou que por ali passaram manifestantes e também a polícia, mas, para sua sorte, nada foi levado. Sobre a agitação, comentou: “Complicado, muito confuso”. O vendedor, com  sua dúvida, talvez estivesse mais esclarecido do que muitos que bradavam frases feitas.

*Reportagem originalmente publicada no jornal impresso Editorial J, disponível abaixo:

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Doc: Otto Terapia



Documentário produzido para a disciplina de Projeto Experimental de TV, no curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da PUCRS (Famecos), em 2013/1. Alunos: Aline Vargas, Caroline Zanini, Gabriel Galli Arévalo, Gabriela Schiavi, Jéssica Mello, Liane Fraga, Lorenço Oliveira, Renata Araújo, Sarah Souza, Sofia Stoffel e Priscila Vanzin. Orientação: Prof. Cláudio Mércio e Prof. Eduardo Wannmacher

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Protesto pacífico e apartidário em Capão da Canoa*

Cerca de 1,5 mil caponenses saíram às ruas para se manifestar contra a corrupção e por melhorias na saúde e educação

Texto, fotos e vídeo | Lorenço Oliveira

Para um município de 42 mil habitantes, segundo o Censo IBGE 2010, a estimativa da Brigada Militar, de que 1,5 mil pessoas saíram às ruas em protesto no domingo, 23, dá dimensão de um marco na história de Capão da Canoa. No período de veraneio, entre dezembro e março, a população chega a aumentar em dez vezes, mas nunca a cidade teve uma grande manifestação popular, a favor múltiplas causas.

Assim como nas demais cidades brasileiras, a convocação do protesto se deu através do Facebook. Em Capão da Canoa, a criação do evento precedeu da existência de um grupo ou bloco de militância. O evento intitulado “1º Ato contra a corrupção e apoio ao movimento em todo o Brasil! Litoral/RS” foi criado na segunda-feira, 17. No dia seguinte, com a confirmação de cerca de mil pessoas, 15 jovens decidiram fundar o grupo “Filhos da Pátria”, na maioria estudantes universitários, e que não se conheciam fora da internet.

No perfil da rede social, o grupo apoia o “movimento que está ocorrendo em todo o Brasil”. Entre as reivindicações, nenhuma novidade em relação a outros protestos: Fim da corrupção, contra PEC 33 e 37 e a favor de “melhorias na saúde, educação, segurança e todas as necessidades básicas do cidadão brasileiro”.

Os “Filhos da Pátria” tomaram a frente e organizaram o protesto com as autoridades, com direito a pedido formal à prefeitura e à Brigada Militar, com divulgação de trajeto. Além disso, eles se autodenominam apartidários, pacíficos, democráticos e não buscam fins lucrativos.

Antes do início da caminhada, previsto para as 14h, os manifestantes se reuniram na praça Flávio Boianovsky, em frente a Casa de Cultura Érico Veríssimo. No gramado da praça, crianças, jovens e adultos pintavam seus rostos com tinta verde e amarela. Alguns traziam cartazes de casa e outros escreviam suas causas na hora. Entre as reivindicações, uma frase escrita em pedaço de papelão clamava: “Quero vaga na escola para meu filho cadeirante”, pedia uma mãe que não conseguia matricular o filho com deficiência em turno normal de escola pública. “Elas [as escolas] dizem que só tem vaga à noite”. Outra jovem de cadeira de rodas trazia no cartaz uma frase cômica, mas não menos trágica: “Cadeirante não voa! Por mais rampas em Capão.”

Havia também quem protestava contra a PDC 234, o polêmico projeto conhecido como “cura gay”, aprovado recentemente na Comissão de Minorias e Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. “Homossexualidade não é doença, homofobia sim” e “Não há cura para o que não é doença! Psicólogos não (re)orientam a homossexualidade. Fora INFeliciano”, diziam cartazes.

Um carro, com caixas de som no porta-malas, animava quem chegava ao ponto de encontro. A música que tocava era conhecida, ou quase. Especialmente para a ocasião, dois jovens gravaram uma releitura da música “Vem pra rua”, cantada pelo músico Falcão, vocalista da banda O Rappa. A canção original foi produzida para uma campanha temática para Copa das Confederações e virou “hit”. Com o estopim dos protestos em todo o país, a música acabou servindo de trilha sonora de vídeos amadores no YouTube.

A comunicadora de uma rádio AM local Luiza Castro pedia o impeachment da presidenta Dilma: “É um absurdo a nossa presidente querer trazer milhares de médicos de fora do país!”. O assunto, que é polêmico, não teve grande repercussão entre as pessoas presentes na passeata, mas as críticas ao governo apareciam de outras formas como: “A classe média também quer ProUni”, escrito na camiseta de Romário Del Melo, um dos membros do “Filhos da Pátria”. Empunhando um megafone, Del Melo ficou na linha de frente do manifesto, onde articulava palavras de ordem e guiava a multidão pelo trajeto combinado com a Brigada Militar.

No início da caminhada, por volta de 15h, o tenente coronel Ricardo recebeu uma flor branca de um dos personagens mais conhecidos na praia de Capão: o Senninha, caponense fanático pelo piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna. O oficial caminhou junto com as pessoas no front da manifestação, inclusive, zelando por alguns automóveis estacionados, encurtando os retrovisores. Segundo o tenente coronel, que organizou a operação, 50 policiais efetivos foram escalados para trabalhar durante o protesto, além do monitoramento aéreo realizado por um helicóptero da BM.

Uma ameaça surgiu a partir de uma postagem via Facebook. O boato era que os vândalos viriam de outras cidades, como Porto Alegre. Notava-se um medo real do comércio em relação a possíveis ações de vândalos durante a manifestação. A Associação Comercial e Industrial de Capão da Canoa (ACICC) sugeriu aos empresários que não abrissem seus estabelecimentos comerciais no domingo, principalmente, os localizados na avenida Paraguassú e na rua Sepé – vias do centro da cidade, previstas no trajeto da caminhada.

Um homem de jaqueta preta, que às vezes tomava a frente da passeata, arriscava gritos de ordem para os manifestantes. Em um desses momentos, ele criticou a polícia: “Hoje a Brigada está aqui, mas não nós sabemos que não é sempre assim”. Imediatamente, algumas pessoas que organizavam a manifestação interpelaram o homem, que se calou em seguida.

Ao fim do protesto, o resultado foi o esperado com nenhum registro de vandalismo. No mesmo dia, em outras 20 cidades gaúchas ocorreram protestos com as mesmas características: Todos pacíficos.



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*Artigo publicado originalmente no site do Editorial J, laboratório de jornalismo da Famecos, em 26 de junho de 2013.

A massa impermeável*

As ruas da capital gaúcha foram ocupadas durante o protesto que reuniu cerca de 20 mil manifestantes.

Texto
| Lorenço Oliveira
Foto | Caroline Ferraz

“Tem uns menino bom novo hoje aí na rua, pra lá e pra cá, que corre pelo certo… Mas já tem uns também que eu vou te falar, viu… só por Deus, viu! Ave Maria”.

As frases escritas no cartaz de um garoto, trepado na grade da praça Montevideo, não são de autoria dele. Elas iniciam a música “Subirusdoistiozin”, do rapper paulistano Criolo. Apesar da diferença de realidades, o verso tonifica bem o conflito dos discursos observados durante o protesto do dia 20 de junho, em Porto Alegre.

Por volta das 18h30min, surgiam os primeiros coros que sugeriam uma rota para a passeata: “Anda! Anda! Anda!” e “Quem não anda quer aumento!”. Este último grito de ordem era reeditada para diversas situações. Quando o hino rio-grandense surgiu, uma garota gritava sozinha: “Ei, reaça! Vaza dessa marcha!”.

Ao lado da prefeitura, no cruzamento com a rua Siqueira Campos, parte da multidão começava a caminhar em direção a avenida Júlio de Castilhos. Poucos metros à frente, um princípio de briga, a massa se dividia. “Volta! Volta! Eles são do PT”, urrava um sujeito baixinho entroncado, que tentava convencer o grupo a permanecer em volta da prefeitura.

No início da avenida Júlio de Castilhos, o grupo parecia não entender que era guiado por um partido. Enquanto uma dezena de pessoas desfilava por cima do arco da estação Mercado do Trensurb, 18 cavalarianos da Brigada Militar, parados embaixo deste mesmo monumento, observavam a massa que tomava de forma pacífica a avenida.

De repente, um pedido para que todos se abaixem. Uma militante que tentava liderar começa um “megafone humano”, em que ela gritava e todos repetiam. A ordem era clara: Liberar espaço para as faixas passarem. Bandeiras da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Estadual dos Estudantes (UEE) voaram por um corredor, aberto de forma messiânica pela líder estudantil.

Às 19h30min, a massa contornava a Igreja Universal do Reino de Deus. Os gritos de ordem lançavam criticas ao deputado Marco Feliciano. Uma pessoa na janela do prédio da Igreja filmava e abanava em apoio à manifestação.

Ao ver que o povo se preparava para subir o viaduto, um sujeito reclamava: “Estamos indo para o lado errado!”. Questionado sobre qual seria o destino correto, ele responde: “Nas outras cidades as pessoas vão para o Palácio ou Assembleia daquele Estado. Não faz sentido este caminho”. O rumo que se via traçado agora era o túnel da Conceição.

Em um determinado momento, pouco antes da entrada do túnel, panos brancos apareciam nas janelas dos prédios em volta. O refrão “quem apoia pisca a luz” convidava os moradores a participarem do protesto. Quando uma turma percebeu que em um dos prédios as luzes eram coloridas, os gritos ganharam mais contexto: “Vem pra rua e fica nua” e “Quem apoia mostra os peitos” eram direcionados às prostitutas que abanavam sem intimidação.

Dentro do túnel, a fumaça de sinalizadores preenchia o espaço, que mais se parecia com uma caixa amplificada de coros: “O povo acordou!”. A semelhança com uma torcida de futebol que saía de um estádio era grande. Um espetáculo que exigia estar na escuta de um radinho, como numa partida de futebol no estádio. Ninguém sabia direito o que se passava na linha de frente do manifesto. Ao alcançar a avenida Salgado Filho, a massa foi silenciada pela ordem: “É hospital, turista”.

Na esquina com a avenida Osvaldo Aranha, forma-se um cordão humano que manobrava a massa em direção à praça Argentina. De lá, a população chegava à avenida João Pessoa, onde outros destinos seriam novamente traçados. A chuva e o vento continuavam. Alguns se refugiavam nas paradas de ônibus e o que se via eram pequenas turmas de amigos curtindo o evento. Uma espécie de festa na chuva, com direito a rostos pintados e nariz de palhaço. Uma verdadeira massa impermeável.

Nos protestos anteriores, o caminho para a avenida João Pessoa significava um fim certo: “Temos que voltar! É emboscada”, gritava um homem de meia idade, desmascarado, que tentava explicar a conspiração: “Tem gente infiltrada levando o pessoal para [avenida] Ipiranga, onde está o [batalhão] choque”. O boato de policiais infiltrados no front não se confirmou, mas a batalha era certa.

De repente, nas imediações do Shopping João Pessoa, a passeata começa a parar aos poucos. A única referência da população é a luz projetada pelos helicópteros que voavam baixo. Um jovem com fones no ouvido, provavelmente ouvindo rádio, falava para um amigo: “Estão queimando o Itamaraty”.

*Artigo originalmente publicada no site do Editorial J, laboratório de jornalismo da Famecos, em 21 de junho de 2013.