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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

“A beleza da forma dá crédito ao sentido”

Aguinsky em ação: esculturas pesam de 30 quilos a 4 toneladas Foto: Paulo Aguinsky/Divulgação
Em entrevista ao jornal Momento, o premiado escultor gaúcho Paulo Aguinsky fala sobre seus métodos de trabalho e sobre a exposição “Nexo da Forma” que abre hoje em Capão da Canoa

Lorenço Oliveira

CAPÃO DA CANOAPaulo Aguinsky é um escultor calejado. Mas não no sentido literal da palavra, com mãos gastas de tanto esculpir. Aos 72 anos, Aguinsky é do tipo que coleciona prêmios na Europa, como as Medalhas de Ouro, Prata e Bronze no Salão dos Artistas Franceses, Medalha da Cidade de Paris e o Prêmio Taylor de Escultura. Também representou o Brasil em diversas exposições em vários países do mundo. Nascido em São Borja, é médico cirurgião, o que ele acredita ter lhe ajudado com a precisão e a habilidade no manuseio com instrumentos. Sua mais nova exposição, “Nexo da Forma: no Universo da Pedra”, com 23 obras feitas em granito, basalto e mármore, vai de hoje a 28 de fevereiro, na loja Redemac Zona Nova, em Capão da Canoa. Confira abaixo a entrevista concedida nesta sexta-feira (9) pela manhã.


Jornal Momento – Como foi que começou o seu interesse pela escultura?
Paulo Aguinsky – Eu faço esculturas desde os 15 anos de idade. E eu me interessei acidentalmente. Com a argila eu comecei a ver que era maleável, e aí passei a fazer esculturas. Acidental. Não foi nada induzido ou algo escolar. Foi circunstancial.

JM – Há uma história de que seus pais tinham casa aqui na praia e você começou brincando na areia...
PA – Esse é link que existe com Capão da Canoa não é acidental. Antes de fazer esculturas com argila eu fazia com areia na beira da praia. Eu vinha veranear todos os anos. No início, nem existia a Zona Nova [bairro], naquele tempo ela era um deserto. Meus pais tinham um apartamento no centro. Depois, tivemos um das primeiras casas que surgiram na Zona Nova. E eu vinha muito pescar por aqui, já que era mais afastado do centro. E eu costuma ir para a beira da praia fazer esculturas. Era uma recreação. Acho que aí seja o momento mais antigo que eu tenha em relação a arte de esculpir.

JM – Você disse em outras entrevistas que a sua formação médica lhe ajudou na precisão e na habilidade. De que outras formas a medicina interferiu ou influenciou no seu trabalho?
PA – Medicina não tem nada a ver com arte. Uma coisa é essencialmente técnica e tu segue linhas rígidas. Tu não pode inventar nada na barriga de um paciente. Então tem aquele limite, que a medicina é conhecimento científico e habilidade de tu saber usar esse conhecimento. E se tu é cirurgião, você tem habilidade física de atuar naquilo ali. Tanto você pode usar na escultura como na cirurgia. Uma na realidade ajuda a outra. Se eu não estou operando eu estou esculpindo. Eu estou desenvolvendo a minha capacidade manual, usar as mãos para uma ação. Mas o que a medicina foi realmente muito importante é no apoio técnico da sistemática de como eu fui capaz de aprender a usar os meus instrumentos para a escultura. Um escultor não ortodoxo como eu, ele pega um material usa aqui, experimenta outro. Eu não. Eu preparo a minha mesa para a escultura, com as máquinas, como se fosse fazer uma cirurgia. Então, eu sei direitinho cada etapa, eu não uso o instrumento errado, eu uso exatamente para cada parte e eu vou trocando. Eu aprendi uma sistemática de trabalho. E eu acho que isso foi muito prático. Isso me deu método de ação.

JM – Em outro momento você disse que se interessa mais pela forma do que pelo simbolismo. O que você quis dizer com isso?
PA – Não existe no humano nada de informal que não seja simbólico. Toda a forma do ser humano tem um significado. As pessoas vão perguntar “o que é isso?” e tu vai ter que achar uma resposta para aquilo ali. Porque ele não vai sair dali satisfeito, mesmo que tu diga qualquer coisa, ele diz “não, isso não é isso”. Ele vai ter que achar o encontro entre a forma e o que ele acha. “Não, isso aqui representa o crescimento de uma semente...”, aí o cara “ahhhhh, tá”. Então, a mente não permite que tu tenha uma forma sem nome. O nome é fundamental. O nosso sistema de pensamento sempre tem que ter um significado. A forma só tem valor quando ela tem significado. Então, eu não dou bola para o significado. Eu faço a forma. E eu encontro o significado, eu invento o significado. Que é o que se faz com a arte moderna hoje. Eu prezo mais pela forma do que pelo simbolismo. Por que a forma traz em si um aspecto de beleza e de estética. E o sentido não. O sentido não tem estética. O sentido não tem forma. Eu poderia resumir assim: a beleza da forma dá crédito ao sentido, inventei essa frase agora. Mas eu acredito nisso aí mesmo.

Peixe Vermelho. Em mármore. Medalha de Ouro "Le Salon 98" - Salão dos Artistas Franceses - Paris Foto: Paulo Aguinsky/Divulgação 
JM – Eu reparei que em algumas obras você deixa um pouco da pedra bruta...
PA – Aquilo ali é atávico, no sentido da memória. Até o próprio título dessa exposição eu gosto muito “Nexo da Forma”. A forma só tem nexo porque nós humanos damos esse nexo. Por que a pedra em sí não escolheu forma, é tudo ocasional. O universo todo tem pedras, meteoritos e formas diferentes. Então a forma quem dá o significado é o humano. Então, aqueles fragmentos ali, que eu diria, sem nexo, que é a pedra bruta, eu dou um sentido de natureza, eles eram assim. Até talvez uma vaidade para dizer “tudo era bruto e eu transformei isso em algo novo”. Eu gosto de deixar aquilo ali desde que não interfira no contexto. Dá um efeito técnico, de ter uma superfície muito grande, muito lisa e deixar algo ali. Quebrar o olhar sem perder a qualidade. E não é uma novidade isso aí. Outros escultores também fazem isso.

JM – Como é que foi este episódio em que lhe encomendaram uma peça para dar de presente ao presidente da China?
PA – Isso foi quando o presidente da China veio ao Brasil. Eu estava fazendo um projeto a nível nacional que se chamava “Pedras do Brasil”. E esse projeto foi a pedido da presidente, quando ela era ministra, pois já conhecia o meu trabalho. Eu ia a Europa e tinha muitos blocos de pedra, porque o Brasil é um dos maiores produtores de granito do mundo. São os melhores e mais bonitos. E aí, chega na Itália, eles apagam “Brasil” e colocam “Itália”. Exportam pro Japão, China etc. Eles cortam em lâminas e exportam pra lá. Em todos os aeroportos, você pode ver, tem granito e a maioria é aqui do Brasil, grande parte, como se fosse da Itália. E eu reclamei que isso era uma pena. Porque a pedra é uma identidade de um lugar qualquer. Se tu morar numa vila, lá em Caçapava, você vai ter uma pedra, que é a pedra da minha terra. Ela é única e não tem em lugar nenhum do mundo. Ela, sozinha, é uma identidade e o mineral é também, o que dá uma dupla identidade. Eu acho que a pedra é a identidade de um local. Nem de um país, de um município, vamos dizer. E eu reclamei que lá estava sendo explorado as pedras do Brasil, a identidade dos locais produtores, promovendo países que não tinham nada a ver com a história. Aí eles pediram uma ideia e eu sugeri de fazer uma exposição itinerante chamada “Pedras do Brasil”. E cada pedra, que vai no catálogo, vai o nome do município. E todo mundo quer uma pedra de seu município esculpida. Eu estava nesse evento, então, quando veio o presidente da China [Hu Jintao] e ela [Dilma] pediu uma sugestão de presente para ele. “Vamos fazer algo simbólico da China que seja de fácil leitura com uma pedra que tenha grande significado”, eu disse. Então eu peguei aquele mármore verde que é de Caçapava do Sul, uma pedra que tem 600 milhões de anos e fiz uma tartaruga que é um símbolo muito forte na China. E eles gostaram muito porque é uma pedra raríssima que só existe ali naquela região. Parece uma esmeralda e o nome se deu “Tartaruga Marinha”, em função dos aspectos de conservação dos animais. Tem esse significado político e social e a China estava entrando num programa ecológico e a tartaruga lá é muito respeitada. Eu já havia feito uma tartaruga para um chinês, há uns 5 anos antes, mas ele não comprou. Não comprou porque a tartaruga olhava para o lado. Na China, a tartaruga é símbolo de algo perene e de “olhar pra frente”. Então, quando eu fiz esta de presente, eu disse “não vou errar agora”. E hoje está num museu da China.

Torso Negro. Em basalto. Foto: Paulo Aguinsky/Divulgação


JM – Você já chegou a contabilizar quantas esculturas de pedra você já fez?
PA – Não tenho um número. Mas são muitas esculturas. Hoje eu faço relativamente rápido, porque eu tenho um instrumental muito bom. Tu vê que eu não tenho mãos de pedreiro, eu faço tudo requintadamente. E faço render muito. E eu nunca trabalho numa escultura apenas, eu trabalho em três a quatro ao mesmo tempo. Porque enjoa. Aquelas grandes eu levo quatro anos fazendo. E às vezes tu tá fazendo e tu cria outra. Tu para tudo e vai pra lá. Aquilo é um momento, um flash. Essas aí [esculturas monumentais] são feitas em maquete primeiro. Então são duas técnicas: uma que eu faço o projeto, maquete, procuro a pedra e então começo a desbastar. E eu tenho que seguir rigorosamente, tem que seguir uma forma. A outra técnica é o entalhe direto: uma pedra bruta, que tu vai esculpindo e vendo no que vai dar. Essa técnica exige muita concentração porque tu tem que seguir uma linha de raciocínio que é inconsciente. Tu não sabe o que que vai dar. Eu diria que é como dirigir na estrada. Você tá pensando em outra coisa e tu está guiando. Que é o caso da maioria das pedras que estão expostas aqui hoje. Por exemplo, aquele peixe medalha de ouro, tem uma asa vermelha. Toda a escultura foi a partir da asa vermelha que eu achei ali. É muito vibrante isso porque na confecção da obra tu vai te emocionando, tu vai te surpreendendo com cada evento e acontecimento. Por mais que eu explique eu vou sempre inventar uma história que não vai ter uma relação concreta, é algo inconsciente. Tu mesmo vai te surpreender depois com o que tu fez. É uma análise a posteriori.

JM – Quando você está fazendo entalhe direto, você costuma se concentrar numa obra só?
PA – No entalhe direto você entra em transe. É uma coisa muito ruim, porque a concentração excede tua visão externa. Tu vê a tua mão trabalhando. Como se você estivesse ali atuando de forma autônoma, sem interferência da razão. Se entrar a razão, você é capaz de tirar um pedaço que não devia. Porque a razão é  baseada em princípios lógicos. De cubo, de cilindro, de reta, de linhas. E o inconsciente é como um sonho. O sonho nunca tem pé nem cabeça, depois tu tem que interpretar. E o entalhe direto tu tem que treinar isso. Mas tu não pode interferir no teu processo com a razão.


Nexo da Forma: no Universo da Pedra, de Paulo Aguinsky
De 10 de janeiro a 28 de fevereiro, na Redemac Zona Nova Center (Avenida Paraguassú, 1332 – Capão da Canoa). Entrada Franca



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Capão aguarda resolução da Fepam para obra de estação de tratamento

Tratamento de esgoto em Capão da Canoa é através de bacias de infiltração.
Foto: Assessoria de Comunicação Social/Corsan
Com a melhor distribuição de esgoto do Litoral Norte, projeto de nova estação de tratamento não consegue sair do papel

Lorenço Oliveira

CAPÃO DA CANOAOs caponenses possuem a melhor rede de esgotos do Litoral Norte. No entanto, poderia ser melhor, se a nova estação de tratamento de esgoto Guarany, prevista há anos, estivesse pronta. A verticalização do município provocado pelo crescimento imobiliário pressiona os órgãos públicos, mas o impasse segue sem definição.

A história do esgotamento sanitário em Capão da Canoa é semelhante a de Torres. Na década de 1990, o Ministério Público Federal embargou a construção civil no município por falta de sistema de esgoto adequado. Assim que as ETEs foram ampliadas, o setor voltou a crescer.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Capão da Canoa atingiu em 46.467 em 2014. Segundo estimativa da prefeitura, no entanto, a cidade chega a comportar 400 mil turistas durante o veraneio.

Os caponenses vivem com uma cobertura de coleta de esgoto de 57% da cidade (20.507 economias), segundo informações da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). O esgoto sanitário é coletado, encaminhado para duas estações de bombeamento (EBE) e recalcado para as duas estações de tratamento de efluentes (ETEs São Jorge e Araçá). Diferente de Torres, as ETEs de Capão da Canoa são compostas por bacias de infiltração, por tanto, não despejam efluentes em rios ou lagoas.

Capão da Canoa assistiu nos últimos anos um crescimento exponencial da construção civil, o que muitos chamaram de “boom” do setor. De acordo com a Associação dos Construtores e Incorporadores da Construção Civil de Capão da Canoa (Associc), o setor é responsável por 70% da geração de empregos (diretos e indiretos) no município. Na semana passada, o prefeito Valdomiro Novaski informou na Rádio Gaúcha que atualmente há uma média de 45 prédios sendo construídos na cidade.


Loteamentos privados

Além dos edifícios, o município passou a receber também os empreendimentos de condomínios horizontais de luxo. São áreas privadas que possuem segurança 24 horas, ruas pavimentadas, salões de eventos, piscinas, quadras de tênis, lagos artificiais e, é claro, esgoto tratado.

Atualmente, de acordo com a Secretaria de Meio Ambiente e Planejamento de Capão da Canoa, seis condomínios estão instalados na área do município, e há, pelo menos, mais quatro projetos sendo estudados para os próximos anos.

A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) faz exigências diferenciadas para cada condomínio horizontal. Em tese, os empreendimentos precisam estar ligados através de uma a rede separadora absoluta. O Condado de Capão, do grupo Capão Novo, é o único que segue essa linha.

Já o condomínio Velas da Marina, do grupo Marina Park, localizado à margem da ERS-389 (Estrada do Mar), possui licença para aplicar o sistema de fossas e sumidouros, em que a manutenção é feita por caminhões limpa-fossas. A explicação do arquiteto concursado da Secretaria de Meio Ambiente e Planejamento, João Batista Canani, é de que o solo naquela região possui o lençol freático muito baixo.

O mesmo ocorreu na licença ambiental dos dois condomínios instalados mais recentemente em Capão, os Ilhas Resort 1 e 2. O empreendimento da incorporadora Beralv possui áreas nos dois lados da Estrada do Mar (ERS-389), com características de solo semelhantes ao Velas da Marina.

Segundo Canani, o condomínio Dubai Resort, da M.Grupo, ainda não possui licença ambiental e, por tanto, não pode construir em sua área. “O que ocorreu, no entanto, foi uma flexibilização por parte da Fepam que limitou a construção de até 30 unidades. Já o Costa Serena, da Idealiza e Wagnerpar, ainda não possui nenhum tipo de licença para construir casas”, informa o arquiteto.

Homens trabalhando?

Capão da Canoa passou nos últimos anos por obras de saneamento básico, como esgoto e água encanada. Foram abertas vias em diversos bairros para a instalação de tubulações, no entanto, o esgoto das casas não está ligado a rede. O motivo? O projeto da nova estação de tratamento ainda não foi aprovado pela Fepam.

A Fundação segue discutindo com a Corsan e o município sobre o destino final dos efluentes. O investimento, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), é de R$ 27 milhões, mas continua sem licitação. A obra da nova ETE Guarany (chamada anteriormente de nova Araçá) possui apenas um gradil em seu perímetro. A expectativa é de saltar a cobertura da rede coletora de 57% para 80%.

A Corsan não tem previsão de quando será iniciada esta obra e a Fepam não deu resposta sobre o tema até a data desta publicação.

“Capital dos condomínios”

Mais recente estação de tratamento de esgoto de Xangri-lá foi construída por consórcio de construtoras de condomínios fechados. Foto: Assessoria de Comunicação Social/Corsan
Consórcio entre empreendedores dá exemplo de iniciativa privada para solucionar esgoto em conjuntos residenciais

Lorenço Oliveira

XANGRI-LÁ – A população residente xangrilense chegou a 13.951 em 2014, de acordo com o IBGE. A Corsan contabiliza atualmente 17.730 economias, das quais 3.616 possuem ligação a rede de esgoto (20,39%). No entanto, esse percentual é predominantemente de condomínios fechados de luxo. O município possui atualmente 31 conjuntos residenciais, sendo que três estão em construção e outros três ainda não foram implantados. Na gestão de 2009/2012, a prefeitura de Xangri-lá se declarou publicamente como a “capital dos condomínios”.

A maioria destes empreendimentos estão ligados a estação de tratamento de efluentes (ETE 2), construída em 2010 por uma associação de condomínios. “Foi um consórcio de investidores que reuniu recursos. Sendo que eles entraram com uma parte e a Corsan com outra parte. Ao invés de cada condomínio construir uma estação individual, se construiu uma grande estação coletiva”, explica o Chefe de Operação e Manutenção Regional da Corsan no Litoral Norte, Rodrigo Lupin.

A ETE realizada pelas construtoras é operada pela Corsan, e o município possui uma cota de 1.000 unidades para residências fora dos conjuntos privados. Segundo o Diretor de Meio Ambiente de Xangri-lá, Evandro Arcaro, o restante da cidade opera com estações compactas em cada residência, de acordo com lei.

“Consiste em uma caixa de gordura, fossa asséptica, reator anaeróbio e filtro anaeróbio. A infiltração do solo com baixa concentração de matéria ocorre de duas formas: ou por sumidouro ou canteiro de transpiração”, explica o Arcaro. No entanto, o diretor informa que a norma limitou a regra apenas para casas a 300 metros a partir das dunas em direção ao continente.

Além deste sistema, Xangri-lá possui uma ETE menor, mais conhecida como Figueirinha. No entanto, é precária, e atende prioritariamente os moradores da Vila Figueirinha, uma ocupação existente há anos nos limites da cidade.

Recursos para ampliação

A Prefeitura de Xangri-lá conseguiu captar recursos do PAC para ampliar as atuais ETEs. De acordo com o site do PAC, a obra de implantação do sistema de esgoto tratado compreende as bacias 4A, 5A, e Av. Paraguassú. Além de uma rede coletora, estação elevatória de esgoto, ETE e ligações domiciliares. O investimento total previsto, segundo a Corsan, é de R$ 19,1 milhões.

Atualmente, quem passa pelas ruas de Xangri-lá pode observar o trabalho de abertura de ruas, para a implantação de 13,6 km de tubulação, além dos ramais prediais e caixas de calçada. Esta primeira fase teve Ordem de início no dia 14 de outubro de 2013 e tem previsão de conclusão em 720 dias. Durante o verão, as obras devem ser paralisadas.

Na edição de amanhã, confira como estão os municípios de Tramandaí e Imbé

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Padaria São João fecha as portas após 59 anos*

Tradicional confeitaria no centro de Capão da Canoa encerrou suas atividades na última quinta-feira (23)

Lorenço Oliveira

Na prateleira dos cigarros, não há mais maços. No balcão envidraçado da caixa registradora, poucas caixinhas de chicletes e doces repousam. Nos refrigeradores resta uma dúzia de bebidas. Pelas duas portas do estabelecimento, localizado na esquina das avenidas Paraguassú e Poti, entram e saem pessoas carregando sacolas de pães, como de praxe. Poucas sabem que será a última vez que sairão dali com cacetinhos frescos, bolos de cenoura, roscas de polvilho, tortas, frios fatiados e outros produtos. Despedem-se sem saber. Imaginam que no dia seguinte terão o mesmo pão francês para o café da manhã. A tarde ensolarada de 23 de outubro de 2014 passa como se fosse uma quinta-feira qualquer. Mas não é. Logo mais, às 20h15, as portas serão fechadas para não abrirem mais. A mais antiga e tradicional padaria do centro de Capão da Canoa, a São João, se despede dos caponenses, depois de 59 anos de atividade.

 A primeira padaria São João foi aberta em 1955, na avenida Poti, muito próximo da esquina com a avenida Paraguassú, onde João Alves Diniz, o baiano, construiu o futuro prédio. Foto: Acervo pessoal da família Diniz.

A decisão de encerrar os trabalhos não é nova. Há seis anos, quando faleceu João Alves Diniz, o baiano, que fundou a padaria em 1955, os filhos cogitaram a ideia de fechar o local. No entanto, continuaram. Depois, há dois anos, quando um dos irmãos, Sérgio, também faleceu, pensou-se novamente em terminar os serviços. “Neste ano veio uma boa proposta para vender o prédio e acabamos aceitando, em acordo conjunto entre todos”, explica uma das proprietárias Maria Elisa Diniz, conhecida por todos como Mariza da São João.

A construção do prédio data por volta do final dos anos 1960, quando Capão da Canoa ainda fazia parte de Osório. O edifício de três andares, onde vive parte da família Diniz, foi vendido para uma construtora local do município. O ponto de esquina será alugado até a entrega do imóvel em junho de 2015. Outros dois estabelecimentos do prédio, um açougue na avenida Poti e um chaveiro na avenida Paraguassú devem permanecer abertos até o ano que vêm. Para o dono do açougue, Vilmar Manuel Marques, de 57 anos, o fechamento da São João afetará o seu negócio que tem mais de 30 anos. “Vou esperar para ver como será o movimento, porque o meu cliente é o mesmo da padaria”, comenta receoso o açogueiro. Já o chaveiro, há dez anos no ponto, ainda não tem o futuro endereço.  

Na década de 1960, a padaria espichou seu prédio até a esquina avenida Paraguassú. Nesta época, os sorvetes artesanais do pai da família, João Alves Diniz, o baiano, já eram sucesso na região. Foto: Acervo pessoal da família Diniz.

“Cansaço”, definiu Mariza, de 63 anos, os quais 50 dedicou ao trabalho na confeitaria. Ela é a segunda mais velha dos seis filhos de João. “Eu tinha nove anos e o Sergio, meu irmão abaixo de mim, tinha sete, quando vendíamos na rua os sonhos [de doce de leite] que meu pai fazia no antigo Hotel Rio-grandense”, relata a confeiteira. Com a morte da mãe, Elvira, em 1964, aos 48 anos, devido complicações no coração, Mariza acabou assumindo a criação dos irmãos muito cedo, com apenas 12 anos de idade. “Não tenho hobby. Tudo que eu fiz na vida foi voltado para a padaria”, conta Mariza, que não se casou e nem teve filhos.

Uma pequena casa de alvenaria na avenida Poti, quase esquina com avenida Paraguassú, foi o primeiro endereço da São João. “Gêneros alimentícios em geral”, anunciava a pintura na parede. “Nessa época, o baiano (João Alves Diniz) usava forno de barro para assar os pães”, recorda Elisabete Diniz, de 60 anos, sendo 37 deles vividos dentro padaria. “Bete”, como é conhecida, é viúva de Sérgio e permaneceu trabalhando com a família depois da morte do marido. “Quando eu cheguei para trabalhar aqui, se vendia de tudo dentro da padaria, como um mini-mercado”, relata.

Em 1960, a casa foi estendida até a esquina da avenida Paraguassú. Nessa época, baiano começou a produzir sorvetes artesanais que eram um sucesso na praia. “O sorvete de abacate era o melhor da praça”, lembra o padeiro mais antigo da São João, Ildo Luis Nunes, no ofício desde 1973.

Entre os herdeiros de baiano, no total oito filhos, seis do primeiro casamento e dois do segundo, todos passaram pela padaria, ajudando de alguma forma. Dos quatro filhos de Bete, apenas Marilia, de 26 anos, seguiu a tradição e ficou até o fechamento. “Eu cresci brincando e ajudando minha mãe e meus tios aqui dentro da padaria”, explica a neta de baiano. Marilia conta que pela idade da padaria, muitos clientes cresceram frequentando o local e hoje trazem filhos para visitar a padaria. “Não adianta. A gente tenta esconder um pouco a emoção, mas acaba se apegando ao lugar e aos clientes”.

Na década de 1970, o prédio tornava-se um ponto de referencia em Capão da Canoa, que no verão vê sua população triplicar. Cena comum do verão era a fila do pão francês sair pela calçada. Foto: Acervo pessoal da família Diniz. 

Nenhum aviso nas portas do estabelecimento informou que a confeitaria seria fechada. Há cerca de um mês, o boato começou a correr de boca-a-boca. Aberta de segunda a segunda, inclusive em feriados, os clientes mais fiéis e amigos da família já tinham conhecimento do fato. Mas a maioria foi pega de surpresa quando Marilia, que estava sentada no caixa, dava a notícia ao devolver o troco: “Então, hoje é o último dia”, anuncia a jovem. “Sério? Mas onde eu vou comprar meu pão agora?”, indaga o aposentado de 80 anos. “É uma pena! O atendimento era muito bom”, comenta o senhor, que há 12 anos é cliente da padaria. Outro cidadão, menos elegante, para em frente ao caixa: “Me vê um Marlboro azul!”, “Não temos mais cigarro”, responde Marilia. “Ah! Não tem? Vão quebrando devagarinho então”, brinca o homem, que sai porta fora. Marilia ri. Até porque, não há mais nada a dizer.

Embora o fechamento tenha desagradado muitos clientes, Mariza é enfática: “Chega uma hora que é preciso parar e descansar”. E, de fato, não há outra motivação. Durante toda a tarde do último dia de funcionamento, o movimento das vendas foi igual a qualquer dia de inverno. “Três fornadas pela manhã, mais cinco à tarde”, explica Mariza. Ao todo, são mais de três mil cacetinhos assados todos os dias no forno à lenha “Ultra-vulcão”. No verão, a produção triplica, pois a fila do pão chega a sair para a rua e se estende pela calçada.

Para Mariza, o sucesso da São João se dá pela tradição do produto. O pão francês, carro-chefe da padaria, é assado da mesma forma há anos. “Nunca vendemos pão congelado. É mais simples de fazer, mas não é a mesma coisa”, argumenta a confeiteira. E os clientes concordam. Daqui pra frente, o pão não será mais o mesmo.

*Matéria publicada originalmente na página 4 da edição de 30 de outubro de 2014 do jornal Momento (Osório-RS).

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Protesto pacífico e apartidário em Capão da Canoa*

Cerca de 1,5 mil caponenses saíram às ruas para se manifestar contra a corrupção e por melhorias na saúde e educação

Texto, fotos e vídeo | Lorenço Oliveira

Para um município de 42 mil habitantes, segundo o Censo IBGE 2010, a estimativa da Brigada Militar, de que 1,5 mil pessoas saíram às ruas em protesto no domingo, 23, dá dimensão de um marco na história de Capão da Canoa. No período de veraneio, entre dezembro e março, a população chega a aumentar em dez vezes, mas nunca a cidade teve uma grande manifestação popular, a favor múltiplas causas.

Assim como nas demais cidades brasileiras, a convocação do protesto se deu através do Facebook. Em Capão da Canoa, a criação do evento precedeu da existência de um grupo ou bloco de militância. O evento intitulado “1º Ato contra a corrupção e apoio ao movimento em todo o Brasil! Litoral/RS” foi criado na segunda-feira, 17. No dia seguinte, com a confirmação de cerca de mil pessoas, 15 jovens decidiram fundar o grupo “Filhos da Pátria”, na maioria estudantes universitários, e que não se conheciam fora da internet.

No perfil da rede social, o grupo apoia o “movimento que está ocorrendo em todo o Brasil”. Entre as reivindicações, nenhuma novidade em relação a outros protestos: Fim da corrupção, contra PEC 33 e 37 e a favor de “melhorias na saúde, educação, segurança e todas as necessidades básicas do cidadão brasileiro”.

Os “Filhos da Pátria” tomaram a frente e organizaram o protesto com as autoridades, com direito a pedido formal à prefeitura e à Brigada Militar, com divulgação de trajeto. Além disso, eles se autodenominam apartidários, pacíficos, democráticos e não buscam fins lucrativos.

Antes do início da caminhada, previsto para as 14h, os manifestantes se reuniram na praça Flávio Boianovsky, em frente a Casa de Cultura Érico Veríssimo. No gramado da praça, crianças, jovens e adultos pintavam seus rostos com tinta verde e amarela. Alguns traziam cartazes de casa e outros escreviam suas causas na hora. Entre as reivindicações, uma frase escrita em pedaço de papelão clamava: “Quero vaga na escola para meu filho cadeirante”, pedia uma mãe que não conseguia matricular o filho com deficiência em turno normal de escola pública. “Elas [as escolas] dizem que só tem vaga à noite”. Outra jovem de cadeira de rodas trazia no cartaz uma frase cômica, mas não menos trágica: “Cadeirante não voa! Por mais rampas em Capão.”

Havia também quem protestava contra a PDC 234, o polêmico projeto conhecido como “cura gay”, aprovado recentemente na Comissão de Minorias e Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. “Homossexualidade não é doença, homofobia sim” e “Não há cura para o que não é doença! Psicólogos não (re)orientam a homossexualidade. Fora INFeliciano”, diziam cartazes.

Um carro, com caixas de som no porta-malas, animava quem chegava ao ponto de encontro. A música que tocava era conhecida, ou quase. Especialmente para a ocasião, dois jovens gravaram uma releitura da música “Vem pra rua”, cantada pelo músico Falcão, vocalista da banda O Rappa. A canção original foi produzida para uma campanha temática para Copa das Confederações e virou “hit”. Com o estopim dos protestos em todo o país, a música acabou servindo de trilha sonora de vídeos amadores no YouTube.

A comunicadora de uma rádio AM local Luiza Castro pedia o impeachment da presidenta Dilma: “É um absurdo a nossa presidente querer trazer milhares de médicos de fora do país!”. O assunto, que é polêmico, não teve grande repercussão entre as pessoas presentes na passeata, mas as críticas ao governo apareciam de outras formas como: “A classe média também quer ProUni”, escrito na camiseta de Romário Del Melo, um dos membros do “Filhos da Pátria”. Empunhando um megafone, Del Melo ficou na linha de frente do manifesto, onde articulava palavras de ordem e guiava a multidão pelo trajeto combinado com a Brigada Militar.

No início da caminhada, por volta de 15h, o tenente coronel Ricardo recebeu uma flor branca de um dos personagens mais conhecidos na praia de Capão: o Senninha, caponense fanático pelo piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna. O oficial caminhou junto com as pessoas no front da manifestação, inclusive, zelando por alguns automóveis estacionados, encurtando os retrovisores. Segundo o tenente coronel, que organizou a operação, 50 policiais efetivos foram escalados para trabalhar durante o protesto, além do monitoramento aéreo realizado por um helicóptero da BM.

Uma ameaça surgiu a partir de uma postagem via Facebook. O boato era que os vândalos viriam de outras cidades, como Porto Alegre. Notava-se um medo real do comércio em relação a possíveis ações de vândalos durante a manifestação. A Associação Comercial e Industrial de Capão da Canoa (ACICC) sugeriu aos empresários que não abrissem seus estabelecimentos comerciais no domingo, principalmente, os localizados na avenida Paraguassú e na rua Sepé – vias do centro da cidade, previstas no trajeto da caminhada.

Um homem de jaqueta preta, que às vezes tomava a frente da passeata, arriscava gritos de ordem para os manifestantes. Em um desses momentos, ele criticou a polícia: “Hoje a Brigada está aqui, mas não nós sabemos que não é sempre assim”. Imediatamente, algumas pessoas que organizavam a manifestação interpelaram o homem, que se calou em seguida.

Ao fim do protesto, o resultado foi o esperado com nenhum registro de vandalismo. No mesmo dia, em outras 20 cidades gaúchas ocorreram protestos com as mesmas características: Todos pacíficos.



*

*Artigo publicado originalmente no site do Editorial J, laboratório de jornalismo da Famecos, em 26 de junho de 2013.