quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Policia investiga contaminação de solo por tóxicos enterrados em parque

A suspeita é de que lixo hospitalar e outros produtos tóxicos tenham sido enterrados na área que fica próximo a um córrego

Lorenço Oliveira

IMBÉ – A Delegacia Especializada em Proteção e Defesa do Meio Ambiente (DEMA), em Porto Alegre, investiga há cerca de dois meses a ocorrência de um crime ambiental no Parque de Eventos Petronilho Luciano Dias, no distrito de Santa Terezinha, em Imbé. A suspeita é de que a área tenha servido de depósito clandestino de lixo hospitalar e produtos tóxicos do Posto de Saúde 24 horas do município.

O Parque de rodeios fica no distrito de Santa Terezinha, à margem da ERS-786, rodovia que liga a Estrada do Mar a Imbé. Em destaque o local exato onde foi enterrado o lixo tóxico e isolado pela prefeitura. Arte sobre Google Maps/ Lorenço Oliveira

A denúncia surgiu por volta de agosto de 2013, quando o então diretor do Parque de Eventos, Nei Jurandir Jacques de Souza, recebeu a notícia que funcionários do parque teriam desenterrado garrafas com um líquido transparente desconhecido. Nei constatou o fato in loco e seu irmão, o ex-gestor da prefeitura Guaraci Jacques de Souza, também foi ao local e tirou fotos.

Parte de garrafa de vidro escuro aparece enterrada no Parque de Eventos Foto Guaraci J. de Souza

A Vigilância Sanitária do município foi acionada para verificar. “Encontrei 2 ou 3 garrafas e comuniquei o delegado”, relata o chefe da Vigilância, Leandro Dias de Castro, mais conhecido como “Caco”. No entanto, Leandro duvida da autenticidade do material: “É possível que tenham colocado essas garrafas ali. Quando cheguei, elas já estavam fora da terra”.

O delegado titular de Imbé, Valeriano Garcia Neto, também constatou a presença de garrafas e vidros quebrados. “Eram muitas garrafas com um líquido transparente e sem identificação”, disse o delegado. “Encaminhamos a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que interditou a área com faixas”.

Técnicos da Secretaria de Meio Ambiente de Imbé interditaram a área com possível contaminação Foto Guaraci J. de Souza
O Secretário de Meio Ambiente na época, o biólogo Pedro Terra Leite, também esteve no local. “Havia um cheiro muito forte. A hipótese é de que tenham enterrado medicamentos e outros produtos”, informa o biólogo.

O inquérito foi instaurado pela Policia Civil, mas ficou parado até setembro deste ano, quando Guaraci encaminhou um ofício ao delegado pedindo celeridade ao processo. Algumas semanas depois, o inquérito chegou ao DEMA, na capital. Segundo o delegado titular do município, Valeriano Garcia Neto, a delegacia de Imbé não tem condições de fazer uma análise no material coletado e passou o processo para uma especializada. “O DEMA vai investigar uma eventual contaminação do córrego que passa ali próximo”, explica o delegado.

A delegada titular do DEMA, Roberta Bertoldo da Silva, recebeu o inquérito em setembro e adiantou que esteve no parque para verificar o fato. Segundo a delegada, ainda não é possível constatar a ocorrência de crimes ambientais, como poluição e armazenagem irregular de produtos tóxicos (artigos 54 e 56 da Lei de Crimes Ambientais). “É óbvio que alguma coisa foi enterrada, mas vendo superficialmente não é possível provar tamanha repercussão do caso. Até porque já se passou muitos meses desde o fato”, declarou a titular. A delegada disse também que já solicitou ao IGP uma perícia no local.

*Reportagem publicada no jornal Momento no dia 27 de novembro de 2014.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Secretário Municipal da Saúde vai pedir sindicância para apurar informações sobre raio-x em Imbé

Equipamento radiológico doado em 1997 não possui registros oficiais; Ex-gestor suspeita que aparelho tenha sido enterrado em parque de rodeios

Lorenço Oliveira

IMBÉ – A Secretaria Municipal da Saúde de Imbé vai pedir a abertura de uma sindicância a fim de apurar informações sobre um aparelho de raio-x, do Posto de Saúde 24 horas. A máquina, doada pelo extinto Lions Club de Imbé em 1997, operou durante anos, mas não possui registros de entrada e saída no Setor de Patrimônio da prefeitura. O pedido de abertura do processo deve chegar à análise do prefeito no início da semana que vêm. Um ex-gestor da prefeitura suspeita que o equipamento de radiografia tenha sido enterrado no Parque de Eventos Petronilho Luciano Dias, no distrito de Santa Terezinha, onde é realizado o rodeio municipal.

O Momento pediu através da Lei de Acesso a Informação (N° 12.527 de 2011), informações sobre o antigo aparelho em 30 de outubro deste ano. Segundo o Secretário Municipal da Saúde, Leandro Candiago, o Setor de Patrimônio da prefeitura declarou que “nada consta nos registros do setor” e que “não havia o hábito de comunicar as doações nesta época, visto também que não existia a Lei de Responsabilidade Fiscal [Lei Complementar N° 101, de 2000]”.

Com a inexistência de documentação sobre o respectivo aparelho, Candiago pretende encaminhar um processo de sindicância ao Prefeito de Imbé, Pierre Emerim da Rosa (PT). “O pedido será feito até o final dessa semana e devemos ter uma posição do prefeito no início da semana que vêm”, disse ontem o secretário.

Raio-x foi doado ao município pelo extinto Lions Club de Imbé. O jornal Momento teve acesso com exclusividade ao documento com foto anexada. Reprodução de documento/Lions Club Imbé
A denúncia de que o aparelho de raio-x, doado pelo Lions Club de Imbé em 1997, não teria registros oficiais na prefeitura foi feita pelo ex-gestor municipal e atual presidente do Partido da República (PR) em Imbé, Guaraci Jacques de Souza. “Onde foi parar esse raio-x? Este aparelho é controlado pelo CNEN [Comissão de Energia Nuclear] e precisa ter registros de tombamento, se foi vendido ou se foi a leilão”, protesta Guaraci. “A minha suspeita é de que esse aparelho está enterrado no parque de rodeios, por que já foram encontrados outros lixos enterrados lá”.

A inexistência de documentação no Setor de Patrimônio da prefeitura de Imbé levanta a suspeita de Guaraci. No entanto, o ex-gestor não possui provas de que o aparelho tenha realmente sido enterrado.

A comparação com o acidente radiológico ocorrido em Goiânia em 1987, conhecido como “o acidente com Césio 137”, é comum, e Guaraci utiliza deste argumento para polemizar ainda mais o assunto. Naquela ocasião, um aparelho de radioterapia foi encontrado num ferro-velho e desmontado, liberando a substância radioativa. A contaminação afetou 1.600 pessoas e matou 104. O episódio foi considerado o maior acidente radioativo do mundo fora de usina nucleares.

O acidente em Goiânia envolveu um equipamento de radioterapia, comum em tratamento de câncer, o que é diferente do raio-x. A pesquisadora titular do escritório do CNEN em Porto Alegre, Ana Maria Xavier, garante que “o aparelho de raio-x não possui material radioativo e não emite radiação quando desligados”. Para a pesquisadora, caso se configurasse um problema, não seria radiológico, mas químico. “O fluido de refrigeração usado nos equipamentos de raio-x mais antigos pode ter sido o Ascarel, que tem propriedades tóxicas”, complementa.

Conflito político

Guaraci concorreu a vereador de Imbé em 2004 pela coligação PR, PDT, PT, PL e PFL, mas não foi eleito. Em 2012, com a vitória de Pierre Emerim da Rosa (PT), tornou-se assessor no setor de contratos de convênios da prefeitura.

Nei Jurandir Jacques de Souza, irmão de Guaraci e também do PR, entrou como diretor do Parque de Eventos Petronilho Luciano Dias. Jorge Luiz Ferreira, outro membro do PR, que ficou de suplente nas eleições para a Câmara de Vereadores, em 2012, tornou-se guarda noturno do parque.

Após um ano e três meses, o PR rompeu com a prefeitura.Guaraci, Nei e Jorge saíram. Outros dois membros do PR, um eletricista e um fotógrafo continuaram com os cargos. “Saímos por que não havia mais condições. Tem muita coisa errada”, protestou Nei.

A partir daí, Guaraci tornou-se um ativo agitador de denúncias sobre as questões envolvendo o Parque de Eventos. Em 11 de agosto deste ano, o ex-gestor denunciou o fato ao Ministério Público Federal, encaminhando um ofício ao Procurador Geral da República em Capão da Canoa, Felipe da Silva Muller. A denúncia foi repassada ao Ministério Público de Tramandaí, que está sendo analisada pelo Promotor de Justiça Antonio Metzger Képes.

Além de denúncias formais, Guaraci também divulga em sua página no Facebook dezenas de ofícios e resumos sobre a possibilidade de crime ambiental e contaminação por Césio 137 pelo suposto sumiço do aparelho de raio-x.


Em um compartilhamento da rede social, a técnica de radiologia Andréa Pereira faz o questionamento ao Prefeito municipal Pierre Emerim da Rosa. O executivo respondeu, em 4 de outubro, “Sem comentários, notícia com resquício de loucura”.

Em página do Facebook, Prefeito de Imbé se manifesta sobre denúncias de Guaraci. Reprodução do Facebook modificada/Lorenço Oliveira 
*Reportagem publicada no jornal Momento no dia 27 de novembro de 2014.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Osório: Taxa de homicídios é a maior em 12 anos

Brigada Militar em Osório acredita que maior parte dos assassinatos são ligados a disputas de tráfico de drogas

Lorenço Oliveira

OSÓRIO - De janeiro a setembro deste ano foram registrados doze assassinatos em Osório. O número é seis vezes maior que no mesmo período em 2013. Em relação ao total do ano passado (quatro homicídios), é o triplo. A informação é da Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul, que divulgou ontem (5) um balanço dos indicadores criminais dos nove primeiros meses do ano. É o pior desempenho desde 2002, quando começaram a ser contabilizados os dados.

No Litoral Norte, Osório é o município com o maior número absoluto de homicídios. Capão da Canoa e Tramandaí registraram onze assassinatos cada um, nos três primeiros trimestres do ano. Em seguida vem Torres com oito e Balneário Pinhal com seis.

Segundo a SSP, neste ano, os homicídios em Osório começaram em fevereiro, com dois assassinatos. Em março, o número disparou para sete. Em abril, aumentou para nove. Maio, julho e setembro tiveram um homicídio em cada mês.

Para o Major Comandante do 8° Batalhão da Brigada Militar (BPM), Valdeci Antunes dos Santos, este número não espanta. “A maior parte destes homicídios são ligados a disputa de tráfico de drogas e alguns de retaliações de ações passadas”, explica o Major. Informado sobre números de outros anos, Santos vê uma diferença nos números de 2008. Segundo a SSP, foram registrados apenas dois assassinatos. “Com certeza foi mais do isso. Pois houve muitas prisões neste ano. Mas a diferença é compreensível, pois as fontes variam muito”, informa.

Os índices de roubos e furtos de veículos também aumentaram. Entre janeiro e setembro, houve um aumento de 43%, de 67 para 99. No entanto, houve uma redução de 28% em outros roubos e furtos, de 1013 para 733.

Em todo o Estado, o índice de homicídios dolosos cresceram 19,6% em relação aos três trimestres do ano passado. Foram 1.697 assassinatos neste critério, contra 1.419 de 2013. Com relação aos latrocínios (roubos seguidos de morte), houve uma redução de 19%, de 105 casos para 85.

*Matéria publicada na edição de 6 de novembro do jornal Momento.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Padaria São João fecha as portas após 59 anos*

Tradicional confeitaria no centro de Capão da Canoa encerrou suas atividades na última quinta-feira (23)

Lorenço Oliveira

Na prateleira dos cigarros, não há mais maços. No balcão envidraçado da caixa registradora, poucas caixinhas de chicletes e doces repousam. Nos refrigeradores resta uma dúzia de bebidas. Pelas duas portas do estabelecimento, localizado na esquina das avenidas Paraguassú e Poti, entram e saem pessoas carregando sacolas de pães, como de praxe. Poucas sabem que será a última vez que sairão dali com cacetinhos frescos, bolos de cenoura, roscas de polvilho, tortas, frios fatiados e outros produtos. Despedem-se sem saber. Imaginam que no dia seguinte terão o mesmo pão francês para o café da manhã. A tarde ensolarada de 23 de outubro de 2014 passa como se fosse uma quinta-feira qualquer. Mas não é. Logo mais, às 20h15, as portas serão fechadas para não abrirem mais. A mais antiga e tradicional padaria do centro de Capão da Canoa, a São João, se despede dos caponenses, depois de 59 anos de atividade.

 A primeira padaria São João foi aberta em 1955, na avenida Poti, muito próximo da esquina com a avenida Paraguassú, onde João Alves Diniz, o baiano, construiu o futuro prédio. Foto: Acervo pessoal da família Diniz.

A decisão de encerrar os trabalhos não é nova. Há seis anos, quando faleceu João Alves Diniz, o baiano, que fundou a padaria em 1955, os filhos cogitaram a ideia de fechar o local. No entanto, continuaram. Depois, há dois anos, quando um dos irmãos, Sérgio, também faleceu, pensou-se novamente em terminar os serviços. “Neste ano veio uma boa proposta para vender o prédio e acabamos aceitando, em acordo conjunto entre todos”, explica uma das proprietárias Maria Elisa Diniz, conhecida por todos como Mariza da São João.

A construção do prédio data por volta do final dos anos 1960, quando Capão da Canoa ainda fazia parte de Osório. O edifício de três andares, onde vive parte da família Diniz, foi vendido para uma construtora local do município. O ponto de esquina será alugado até a entrega do imóvel em junho de 2015. Outros dois estabelecimentos do prédio, um açougue na avenida Poti e um chaveiro na avenida Paraguassú devem permanecer abertos até o ano que vêm. Para o dono do açougue, Vilmar Manuel Marques, de 57 anos, o fechamento da São João afetará o seu negócio que tem mais de 30 anos. “Vou esperar para ver como será o movimento, porque o meu cliente é o mesmo da padaria”, comenta receoso o açogueiro. Já o chaveiro, há dez anos no ponto, ainda não tem o futuro endereço.  

Na década de 1960, a padaria espichou seu prédio até a esquina avenida Paraguassú. Nesta época, os sorvetes artesanais do pai da família, João Alves Diniz, o baiano, já eram sucesso na região. Foto: Acervo pessoal da família Diniz.

“Cansaço”, definiu Mariza, de 63 anos, os quais 50 dedicou ao trabalho na confeitaria. Ela é a segunda mais velha dos seis filhos de João. “Eu tinha nove anos e o Sergio, meu irmão abaixo de mim, tinha sete, quando vendíamos na rua os sonhos [de doce de leite] que meu pai fazia no antigo Hotel Rio-grandense”, relata a confeiteira. Com a morte da mãe, Elvira, em 1964, aos 48 anos, devido complicações no coração, Mariza acabou assumindo a criação dos irmãos muito cedo, com apenas 12 anos de idade. “Não tenho hobby. Tudo que eu fiz na vida foi voltado para a padaria”, conta Mariza, que não se casou e nem teve filhos.

Uma pequena casa de alvenaria na avenida Poti, quase esquina com avenida Paraguassú, foi o primeiro endereço da São João. “Gêneros alimentícios em geral”, anunciava a pintura na parede. “Nessa época, o baiano (João Alves Diniz) usava forno de barro para assar os pães”, recorda Elisabete Diniz, de 60 anos, sendo 37 deles vividos dentro padaria. “Bete”, como é conhecida, é viúva de Sérgio e permaneceu trabalhando com a família depois da morte do marido. “Quando eu cheguei para trabalhar aqui, se vendia de tudo dentro da padaria, como um mini-mercado”, relata.

Em 1960, a casa foi estendida até a esquina da avenida Paraguassú. Nessa época, baiano começou a produzir sorvetes artesanais que eram um sucesso na praia. “O sorvete de abacate era o melhor da praça”, lembra o padeiro mais antigo da São João, Ildo Luis Nunes, no ofício desde 1973.

Entre os herdeiros de baiano, no total oito filhos, seis do primeiro casamento e dois do segundo, todos passaram pela padaria, ajudando de alguma forma. Dos quatro filhos de Bete, apenas Marilia, de 26 anos, seguiu a tradição e ficou até o fechamento. “Eu cresci brincando e ajudando minha mãe e meus tios aqui dentro da padaria”, explica a neta de baiano. Marilia conta que pela idade da padaria, muitos clientes cresceram frequentando o local e hoje trazem filhos para visitar a padaria. “Não adianta. A gente tenta esconder um pouco a emoção, mas acaba se apegando ao lugar e aos clientes”.

Na década de 1970, o prédio tornava-se um ponto de referencia em Capão da Canoa, que no verão vê sua população triplicar. Cena comum do verão era a fila do pão francês sair pela calçada. Foto: Acervo pessoal da família Diniz. 

Nenhum aviso nas portas do estabelecimento informou que a confeitaria seria fechada. Há cerca de um mês, o boato começou a correr de boca-a-boca. Aberta de segunda a segunda, inclusive em feriados, os clientes mais fiéis e amigos da família já tinham conhecimento do fato. Mas a maioria foi pega de surpresa quando Marilia, que estava sentada no caixa, dava a notícia ao devolver o troco: “Então, hoje é o último dia”, anuncia a jovem. “Sério? Mas onde eu vou comprar meu pão agora?”, indaga o aposentado de 80 anos. “É uma pena! O atendimento era muito bom”, comenta o senhor, que há 12 anos é cliente da padaria. Outro cidadão, menos elegante, para em frente ao caixa: “Me vê um Marlboro azul!”, “Não temos mais cigarro”, responde Marilia. “Ah! Não tem? Vão quebrando devagarinho então”, brinca o homem, que sai porta fora. Marilia ri. Até porque, não há mais nada a dizer.

Embora o fechamento tenha desagradado muitos clientes, Mariza é enfática: “Chega uma hora que é preciso parar e descansar”. E, de fato, não há outra motivação. Durante toda a tarde do último dia de funcionamento, o movimento das vendas foi igual a qualquer dia de inverno. “Três fornadas pela manhã, mais cinco à tarde”, explica Mariza. Ao todo, são mais de três mil cacetinhos assados todos os dias no forno à lenha “Ultra-vulcão”. No verão, a produção triplica, pois a fila do pão chega a sair para a rua e se estende pela calçada.

Para Mariza, o sucesso da São João se dá pela tradição do produto. O pão francês, carro-chefe da padaria, é assado da mesma forma há anos. “Nunca vendemos pão congelado. É mais simples de fazer, mas não é a mesma coisa”, argumenta a confeiteira. E os clientes concordam. Daqui pra frente, o pão não será mais o mesmo.

*Matéria publicada originalmente na página 4 da edição de 30 de outubro de 2014 do jornal Momento (Osório-RS).

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Por dentro da história

Entre tantas causas, manifestantes pediram mais recursos para melhorar a qualidade da educação no país

Quatro estudantes de Jornalismo e um desafio: deixar a posição tradicional de repórter de lado e misturar-se aos manifestantes em Porto Alegre no dia 20 de junho para montar um relato íntimo do movimento. Apenas com os sentidos como ferramenta de apuração, sem blocos, gravadores ou entrevistas formais, buscavam um ponto de vista alternativo. Nestas páginas, a história de quem mergulhou na marcha que parou a região central da Capital. Quatro visões que se completam e questionam os limites da objetividade jornalística
Por volta das 17h30min do dia 20 junho, ao lado dos leões da fachada da Prefeitura de Porto Alegre, um grupo de punks e anarquistas, alguns com o rosto escondido por camisetas e cachecóis, espalhava um forte cheiro de maconha pelo Paço Municipal. Instantes depois, um deles, visivelmente alterado, iria para o meio da multidão tentar conscientizá-la, segurando em uma das mãos uma garrafa de vodka quebrada.
Com rostos encobertos para dificultar a identificação da polícia, portando bandeiras negras e vermelhas, além de cartazes de repúdio à imprensa, os anarquistas, quando acompanhados de perto, não podem ser reduzidos à figura de vândalos, arruaceiros e baderneiros. Ao lado do movimento era possível perceber que, embora muito questionado, ao menos parte dos integrantes possui, sim, projetos e ideais.
Um grupo, que se denominava Frente Autônoma, parecia mais sério. Em meio à multidão com causas difusas e confusas, um componente distribuía uma simples folha de papel A4, ou melhor, a publicação Opinião Anarquista, da Federação Anarquista Gaúcha (FAG). Lia-se no papel os anseios daqueles que só aparecem na mídia como protagonistas da depredação: “Abrir a caixa preta da patronal do transporte coletivo!”, “Democratização da mídia!”, ”Protesto não é crime!”, entre outras palavras de ordem.
Perto dali, ao ser perguntada sobre os panfletos que distribuía, uma brigadiana respondeu que era um recado em defesa dos manifestantes no ato. “E vai ter tropa de choque?”, questionou-se. “Claro, sempre tem uns arruaceiros.”
O clima parecia de Copa, com caras pintadas de verde e amarelo, bandeiras do Brasil e cornetas. Um grupo corria e ria enquanto bradava “Fora PT”. Outros, não tão bem humorados, pregavam o “Acabou o amor, isso aqui vai virar Turquia”. Vendedores ambulantes aproveitavam o tempo para vender guarda-chuvas e capas, além de água, refrigerantes, lanches e até bandeirinhas. Alguns adolescentes carregavam vinho em garrafa de plástico e chamavam os amigos para ir à prefeitura. Outros optavam por levar cervejas ou consumir substâncias alternativas.
Entre estes últimos, surgiu até a tentativa do coro “Dilma Rousseff, legaliza o beck”, sem sucesso, talvez porque os companheiros desta reivindicação estivessem na outra ponta da manifestação, ou porque o grito de guerra surgiu nas bordas do movimento, sob a proteção de um prédio de esquina, onde se escondiam da chuva umas 15 pessoas. Ao ecoar, o chamado foi abafado pela multidão interessada em outros assuntos.
***
Às 18h30min, surgiam os primeiros coros que propunham uma rota para a passeata: “Anda! Anda! Anda!” e “Quem não anda quer aumento!”. Este último grito de ordem era reeditado para diversas situações. Quando o Hino Rio-Grandense surgiu, uma garota gritava sozinha: “Ei, reaça! Vaza dessa marcha!”.
Para onde iriam? Num primeiro olhar, isso parecia ser decidido literalmente no grito. Alguns gritavam “Borges, Borges!”, indicando a Avenida Borges de Medeiros, outros pediam que a massa fosse pela Júlio de Castilhos. Em meio a tudo isso, porém, os anarquistas da Frente Autônoma conversavam entre si e definiam que iriam por esta última via, tomariam o Túnel da Conceição e caminhariam pela Avenida João Pessoa. O grupo acelerou o passo, tomou a frente e, repentinamente, passou a ser seguido pela multidão.
Ao lado da prefeitura, no cruzamento com a Siqueira Campos, em um princípio de briga, a massa se dividiu. “Volta! Volta! Eles são do PT”, urrava um sujeito baixinho, entroncado, que tentava convencer o grupo a permanecer em volta da prefeitura. No entanto, anarquistas e a tal direita reacionária uniam-se na hora de cantar “Sem partido! Sem partido!” para os militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), abominado por quase todos que ali estavam. Pouco se cantava pautas concretas, mas houve vibração quando circulou o boato de que uma bandeira do PT teria sido rasgada. Enquanto uma dezena de pessoas caminhava por cima do arco da estação Mercado do Trensurb, 18 cavalarianos da Brigada Militar, parados sob o mesmo monumento, observavam o povo que tomava de forma pacífica a avenida.
***
Por um momento, a cena parecia um grande evento para o público jovem, como o Planeta Atlântida. Os chapéus de momo vermelhos e pretos e os narizes de palhaço tentavam lembrar que a reunião tinha outra motivação. Cartazes que se desfaziam na chuva, cartolinas envoltas em plástico e até os guarda-chuvas serviam de apoio para frases como “Quem não tem virtude acaba por ser escravo” e “Parem de roubar que vai melhorar”. O grito dos indignados acompanhava o canto da hora: “Ei, Pelé, vai tomar…”. Perto das 19h, a massa atiçava as câmeras e os celulares de quem ainda estava pelo Centro, mas não protestava: tinha apenas o interesse em obter seu próprio registro das faixas, que, entre aqueles que agitavam bandeiras negras e vermelhas, continham dizeres como “Não intimidar, não desmobilizar! Rodear de solidariedade os que lutam!”.
Em frente à Estação Rodoviária e ao Templo Central da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), bastante criticada, novos grupos se uniam à marcha. Em um determinado momento, pouco antes da entrada do túnel, panos brancos apareciam nas janelas dos prédios em volta. O refrão “Quem apoia pisca a luz” convidava os moradores a participarem do protesto. Quando uma turma percebeu que, em uma das janelas, as luzes eram coloridas, os gritos ganharam malícia: “Vem pra rua e fica nua” e “Quem apoia mostra os peitos” eram direcionados às prostitutas que abanavam sem intimidação.
Dentro do túnel, a fumaça de sinalizadores preenchia o espaço, que mais se parecia com uma caixa amplificada de coros: “O povo acordou!”. A semelhança com uma torcida de futebol saindo de um estádio era nítida. Um espetáculo que exigia estar na escuta de um radinho, como em uma partida de futebol no estádio. Ninguém sabia direito o que se passava na linha de frente do manifesto.
Quando o primeiro barulho de bomba foi ouvido, um homem barbudo tranquilizou a Frente Autônoma: “Essa é das nossas”. Enquanto milhares, muitos deles envoltos na bandeira do Brasil ou do Rio Grande do Sul, gritavam o Hino Nacional, os seguidores de Bakunin, ícone do anarquismo, respondiam com “Nossa pátria é o mundo inteiro”. E a disputa seguia: de um lado “O gigante acordou!”, do outro “Só você não viu, a periferia nunca dormiu”, até que cruzaram o túnel e pararam de cantar em respeito aos internados na Santa Casa. A ordem era de silêncio: “É hospital, turista”.
***
Do outro lado da Santa Casa, enquanto os manifestantes pediam silêncio, uma parte virou-se ao contrário da marcha, determinada a chegar ao Palácio Piratini. Por um momento, as pessoas não sabiam o roteiro a seguir. Gritos  sugeriam a RBS. Quem seguiu pela Avenida João Pessoa, encaminhou-se para a Ipiranga, provavelmente para chegar ao prédio da Zero Hora. Um sujeito escalou a primeira parada de ônibus da João Pessoa, para expor a bandeira anarquista. Houve vaias.
Nos protestos anteriores, o caminho para a João Pessoa significava um fim certo. “Temos que voltar! É emboscada”, gritava um homem de meia idade, desmascarado, que tentava explicar a conspiração: “Tem gente infiltrada levando o pessoal para (avenida) Ipiranga, onde está o (batalhão de) choque”. O boato de policiais infiltrados no front não se confirmou, mas a batalha era certa.
No final da avenida, o conflito começou. A partir daí, o grupo anarquista recolhia cartazes e bandeiras e partia para o combate. Como se ignorassem as várias bombas de gás lacrimogêneo, a ordem permanecia sempre a mesma: não recuar. Além de um helicóptero que voava baixo, a fumaça e o barulho de bombas de efeito moral dominaram o protesto. As pessoas corriam, muitos pediam para resistir. Mas a pressão exercida pelas bombas fazia com que uns poucos voltassem. A marcha se dividiu novamente, e uma parte fez o trajeto inverso, sem saber que rumo tomar.
***
Por volta das 21h, a esquina das avenidas Ipiranga com João Pessoa estava envolta em fumaça branca, provocada pelas bombas da tropa de choque. Um manifestante sufocado lavava o rosto com água das poças formadas pela chuva no asfalto. Aqueles que carregavam vinagre dividiam com quem precisasse aliviar os efeitos do gás. O protesto do contra tudo levou muitos para aquela esquina, sem que soubessem ao certo o motivo. Alguns falavam em emboscada, estratégia para desvirtuar o caminho da marcha. A indignação era coletiva, as causas, não. As pessoas caminhavam lado a lado, mas não juntas.
Quem voltava para a Cidade Baixa, na esquina da Lima e Silva com a República, enxergava a cavalaria da BM passando pela João Pessoa. Próximo a um bar, um rapaz tentava depredar um contêiner de lixo e era vaiado pelos poucos que o cercavam. Em plena quinta-feira, às 22h, as ruas do bairro estavam quase vazias. Parecia madrugada.
No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas, a dita Esquina Democrática, vândalos lançavam explosivos, depredavam e saqueavam uma loja. Três policiais da cavalaria passaram no momento e seguiram sem dar atenção ao saque. Em outro ponto da avenida, uma jovem encenava uma performance. Apoiada sobre os joelhos, ela levava as mãos ao rosto, simulando choro. Em suas costas, um cartaz que dizia: “Não é o seu gás lacrimogêneo que me faz chorar”.
A polícia montada fazia uma varredura nos locais que ainda concentravam grupos de protestos. Os que restavam no Centro se dirigiram para o ponto onde o protesto se originou, a prefeitura. Em frente à sede do governo municipal, a tropa de choque fazia uma barreira.
Depois de alguns minutos de confronto, a tropa de militares separou-se. No alto da Borges, cerca de 25 policiais montados. Na Júlio de Castilhos, a tropa de choque se posicionava, assim como na prefeitura e ao lado do Mercado Público. Toda a região foi cercada pela polícia. As bombas de gás eram lançadas, e o deslocamento ficou difícil. O cerco da polícia dispersou os remanescentes. Não era possível passar pela barreira em grandes grupos.
Numa estação de ônibus do Mercado Público, um jovem era socorrido por dois bombeiros. Havia passado mal depois de ser atingido por bombas de gás. Logo ao lado, além das barreiras policiais, um cidadão vigiava suas frutas e legumes no abrigo da Praça Parobé. As ruas estavam desertas, e táxis não circulavam. O vendedor de cabelos brancos contou que por ali passaram manifestantes e também a polícia, mas, para sua sorte, nada foi levado. Sobre a agitação, comentou: “Complicado, muito confuso”. O vendedor, com  sua dúvida, talvez estivesse mais esclarecido do que muitos que bradavam frases feitas.

*Reportagem originalmente publicada no jornal impresso Editorial J, disponível abaixo: