sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Frequência Cultural Nº 1 - Editorial J


Primeira edição do programa de cultura do Editorial J, Frequência Cultural. A repórter Sarah Bastos comenta o documentário Diário de uma Busca e entrevista a diretora, Flávia Castro. Lorenço Oliveira e Yajna Moreira entrevistam o professor Carlos Reis, especialista em Eça de Queirós e ex-diretor da Biblioteca Nacional de Portugal. Schariane Kozak explica como funciona a feira de troca de livros de Porto Alegre. Fotos: Mariana Fontoura. Coordenação: professores Sérgio Stosch e Marcelo Träsel. Técnica: Anderson Almeida e José Alencar. Disciplina de Estágio Curricular (2011/2).

A Metáfora do Balão




A metáfora do balão

Você já pensou o que faz um balão voar? É um princípio físico muito simples: o ar quente sobe e o ar frio desce. A atmosfera é formado por várias camadas de ar que se movimentam em diversas direções. Para subir, o piloto aquece o balão ao ponto de ficar mais leve que o ar. Quando alça voo, ele não sabe aonde vai pousar, mas isto não significa que não tenha o controle do voo e do pouso. Assim como na vida, onde vemos vários caminhos, mas as chances de escolha são limitadas. O piloto pode controlar o balão para subir ou para descer, mas não pode guiá-lo para esquerda ou para direita. Estar a bordo de um balão pode causar uma ilusão de liberdade, de que podemos ir para onde quisermos. Mas, assim como agimos durante nossas vidas, o piloto precisa estar sempre atento às correntes de ar. Como as mudanças de rumo que lhe são repentinamente impostas.

Créditos
Direção: Matheus Schuch, Lorenço Oliveira e Tiago Rech 
Montagem e Edição de Som: Lorenço Oliveira
Argumento: Matheus Schuch e Lorenço Oliveira 
Operador de câmeras: Donaldo Rost e Lorenço Oliveira
Narração: Matheus Schuch
Piloto do balão: Marcos Paulo Silva (RVB balões)
Equipe de resgate: RVB balões

Trilha Sonora:
"Trainspotting" Composta por Primal Scream Executada por Primal Scream Vanishing Point, 1997 ©Cretion Records
Pavane pour une infante defunte Composta por Maurice Ravel Executada pela Royal Philarmonic Orchestra Regida por Barry Wordsworth ©2006 Mediaset Group S.A.

Apoio:
RVB balões Donald Móveis & Decorações

Este vídeo foi produzido por alunos do 4º semestre do curso de Jornalismo da PUC-RS, sem fins lucrativos, destinado integralmente à disciplina de Ética e Cidadania, ministrada pelo Prof. Dr. Sérgio Augusto Sardi, durante o primeiro semestre de 2010.

Porto Alegre, Maio de 2010

Instruções para dar corda no relógio*



*Instruções para dar corda ao relógio: tempo para refletir.

Um relógio que fala, um homem que obedece. Quem leva quem? O tempo tem o homem ou o homem tem o tempo? O curta-metragem baseado no conto, Preâmbulo às instruções de dar corda ao relógio, de Júlio Cortázar, e produzido pelos alunos da cadeira de Cinema II, do curso de jornalismo da PUCRS, não é um filme convencional.  Seu personagem principal é um antigo relógio que embravecido pelo desdém de seu dono, antes tão fiel, se põe a produzir um diálogo revoltado para provar a ele, e todos nós, como ele é fundamental na vida dos humanos. Camilo (João Pedro Wapler) é um rapaz que possui ações um tanto antiquadas para sua idade. Além disso, é totalmente dependente de seu relógio, objeto que o ajuda a ter esse tipo de comportamento. Quando ele recebe de presente dos seus pais (Rui Koetz e Amélia Ricciolini) um relógio novo e automático uma crise se instala no jovem, que não sabe por qual optar, ou seja, qual obedecer. Instruções para dar corda ao relógio é um filme carregado de tensões, que aborda problemas da nossa era atual com humor e sátira. A obra nos trás um personagem caracterizado ao extremo ( jovem, ansioso e perdido) que não sabe lidar com o seu próprio tempo, não se enquadra em sua época. Tudo isso pela visão de um relógio decidido a provar para todos como o homem precisa da sua companhia.


Voz do relógio: José Alberto Andrade
Garoto: João Pedro Wapler
Pai: Rui Koetz
Mãe: Amélia Ricciolini
Ladrão: Bruno Moraes
Garçom: Pedro Fendt
Garçonete: Luana Bonfrisco

Figurantes: Bibiane Cheuiche, Bruna Ostermann, Carolina Fernandes Martins, Fernanda Grabauska, Giuliana de Toledo, Guilherme Bartz, Humberto Lopes, Roberto Enrich de Castro, Tais Gratchen.


Direção: Nathalia Rech
Roteiro: Fernanda Grabauska
Assistente de Direção: Luiz Silveira
Continuidade: Maya Lopes
Direção de produção: Bruno Moraes
Produção de set: Bruna Ostermann e Sofia Vontobel
Produção de elenco: Pedro Fendt
Direção de fotografia: Fernanda Grabauska
Operação de câmera: Márcia Dal Molin
Direção de arte: Bruna Ostermann e Sofia Vontobel
Produção de arte: Fernanda Grabauska e Sofia Vontobel
Microfonista: Natascha Rotta
Musica original: Guilherme Bartz
Piano: Guilherme Bartz
Piano Guilherme Bartz
Montagem: Lorenço Oliveira
Assistente de Montagem: Bruno Moraes e Guilherme Bartz
Direção musical: Guilherme Bartz
Edição de som e mixagem: Guilherme Bartz
Motoristas: Elenilson Pedroso e Bruno Belmonte

Agradecimentos: Secretaria da FAMECOS, Setor de Meios Auxiliares, Prefeitura do Campus da PUCRS, CPM Centro de Produção Multimídia

Filmado com câmera digital Sony DSR-PD170 3CCD Mini-DV
Montado digitalmente em IMac Core 2 Duo - Final Cut Pro 7

Orientadores: Prof. Glênio Póvoas e Prof. Gustavo Spolidoro
Coordenação Departamento de Jornalismo: Prof. Me. Vitor Necchi
Direção FAMECOS: Profa. Dra. Mágda Rodrigues da Cunha

Cinema II - Noite 

Porto Alegre, julho de 2011

Acessibilidade Digital*



Imprudência digital

O desafio de desenvolvedores em produzir sites com acessibilidade para pessoas com necessidades especiais

Lorenço Oliveira

A internet tem proporcionado avanços surpreendentes para vida do homem moderno. Esta sentença parece ser bastante óbvia e não costuma causar estranhamento a qualquer um que já tenha visto, no mínimo uma vez, uma página de web na tela de um computador. Para grande maioria das pessoas, entrar em sites de notícias, comunicar-se por redes sociais ou a conferir a caixa de e-mails, tornaram-se atividades tão cotidianas quanto escovar os dentes. A realidade, no entanto, não é exatamente esta para quem porta algum tipo de necessidade especial. Atualmente as pessoas deficientes visuais, por exemplo, estão utilizando cada vez mais o computador. Isso se dá através de softwares leitores de tela, capazes de identificar códigos de sites e transmitir as informações através de um sintetizador de voz. Apesar dos avanços significativos na área de acessibilidade, estes programas ainda esbarram na imprudência de um ator fundamental nesta história: o desenvolvedor.

Existem duas leis que regulamentam acessibilidade às pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida no Brasil. Ambas são do ano 2000: a Lei n.° 10.048, que dá prioridade de atendimento às pessoas específicas; e a Lei n.° 10.098, que estabelece normas gerais e critérios básicos para promoção de acessibilidade. No entanto, nenhuma delas prevê regulamentação de acessibilidade à informação, mais precisamente, na internet. Até que em 2 de dezembro de 2004, o Decreto n.° 5.296
passa a exigir:

Art. 47 - No prazo de até doze meses a contar da data de publicação deste Decreto, será obrigatória a acessibilidade nos portais e sítios eletrônicos da administração pública na rede mundial de computadores (internet), para o uso das pessoas portadoras de deficiência visual, garantindo-lhes o pleno acesso às informações disponíveis”.

Quem dita os padrões de acessibilidade na internet é a W3C (The World Wide Web Consortium), liderado pelo criador da Web Tim Berners-Lee e o CEO Jeffrey Jaffe. Consiste num consórcio internacional no qual organizações filiadas, uma equipe em tempo integral e o público trabalham juntos para desenvolver padrões para a Web.

Um estudo
recente do Comitê Gestor da Internet no Brasil analisou a aderência dos padrões em páginas HTML, através de um validador automático da W3C. “Dos 6,3 milhões de páginas HTML coletadas, cerca de 91% apresentaram mais de uma incorreção de aderência, apenas 5% estão completamente de acordo com o padrão, e 4% não puderam ser avaliadas”.

A Coordenadora do Departamento de Computação Aplicada da PUCRS e professora Márcia de Borba Campos tem uma hipótese para este número elevado de sites com problemas de acessibilidade. Campos considera os validadores de padrões uma ferramenta indispensável para os programadores, mas ainda assiste, em sala de aula, uma irresponsabilidade dos jovens quanto a estes critérios. “Eu canso de ouvir os meus alunos de programação reclamarem: ‘mas por que precisamos colocar idioma no site?’ Eles não entendem! E para falar a verdade, a grande maioria não entende.”

A professora explica que a ideia de colocar a opção de idiomas não é apenas de possibilitar a leitura para pessoas de diferentes países. A opção permite, por exemplo, que um leitor de tela para cegos identifique aquele idioma e selecione corretamente uma voz sintética daquela língua.

A psicóloga Lêda Lucia Spelta é uma das primeiras pessoas cegas a trabalhar com informática no Rio de Janeiro, em 1974. Foi programadora, analista de sistemas e de suporte, alem de coordenar equipes em empresas públicas e privadas. Desde 2001, tornou-se especialista em acessibilidade na web, trabalhando com consultorias, escrevendo artigos e palestrando para empresários e webdesigners. Em artigo publicado em seu site
, Spelta revela a existência de uma série de mitos sobre acessibilidade na web. Entre os itens listados pela psicóloga está o de que “fazer um site acessível demora e custa caro”.

Para o desenvolvedor e analista em Qualidade de Softwares do Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social), Nelson Azambuja Jr., falta consciência global sobre a importância da acessibilidade na web.  “O que acaba acontecendo é que as empresas e desenvolvedores em geral, optam por querer ‘economizar’ em recursos e conhecimento, favorecendo as questões que consideram mais importantes no desenvolvimento”.  Azambuja acredita que a não conformidade dos requisitos de acessibilidade está na implementação dos padrões por parte dos profissionais. “É necessário que eles [desenvolvedores e webdesigners] conheçam os padrões e adaptem a construção dos sites”.

Sendo uma empresa governamental, o Dataprev atende as recomendações do Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico, o  e-MAG 3.0. Azambuja ressalta que estas adaptações previstas pelo modelo vão desde a elaboração do conceito de navegação e design, até a programação propriamente dita. “O uso de JavaScript, por exemplo, deve ser feito com extrema cautela, para que não seja incompatível com os leitores de tela para deficientes visuais”. Entre outros desafios, o analista do Dataprev questiona que os próprios softwares de leitura de tela não seguem um padrão universal, problema semelhante ao que ainda acontece em relação aos diversos navegadores existentes. “Um site pode funcionar bem com uma versão e simplesmente não funcionar com outra”. 


*Reportagens produzidas na disciplina de Projeto Experimental Online (2012/2), ministrada pelas professoras Andreia Mallmann e Karen Sica.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A ilha de um homem só

Benjamin Trevisan vive há 30 anos isolado em uma porção de terra na Lagoa dos Quadros e até hoje esta história não foi bem contada

Texto e fotos | Lorenço Oliveira

Para John Donne, escritor inglês do século 16, “nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme”. Para os moradores de Prainha, distrito de Maquiné banhado pela Lagoa dos Quadros, Benjamin Trevisan é uma pessoa comum. Longe de ser um ermitão ou um Robson Crusoé moderno, ele plantou, criou animais, instalou luz elétrica e construiu uma casa, onde vive sossegado com seus 80 anos. Para alguns, ele é apenas um posseiro teimoso.

INTERESSES: Os sete hectares quase viraram uma área de nudismo nos anos 1980.
Para chegar à ilha do Pontal, Trevisan tinha que atravessar o chamado Boqueirão, uma distância de cerca de 200 metros da beira. Antigamente, em época de estiagem, a lagoa baixava e emergia uma passagem entre a ilha e o pontal. Por causa desta metamorfose sazonal, os povos da região a chamavam de ilha Mística. Com a navegação fluvial, o estreito virou canal e a ilha se “desgrudou” do Pontal definitivamente. No entanto, por motivos desconhecidos, o dono da ponta começou a impedir a passagem de Trevisan à lagoa. Foi então que um vizinho resolveu ajuda-lo.

“O meu pai deixava-o passar de carro, aqui por cima do nosso terreno, para chegar até a água”, recorda-se Eva Mittmann, apontando para um gramado trilhado ao lado de sua casa. Eva nasceu em 24 de outubro de 1953, mas, por descuido da família, foi registrada como nascida em 3 de novembro. Sua irmã Angelina, 11 anos mais nova, apesar de ser filha de pescador, nunca aprendeu a nadar. “Fui só uma vez lá na ilha porque tenho medo de barco”, envergonha-se.

As duas irmãs nasceram e moram até hoje à beira da lagoa. Relatam que Benjamin era um estranho na região quando veio morar na ilha, mas nunca causou problemas a elas. “É uma pessoa de pouca conversa, que de vez em quando pedia algum favor para nós”, remonta Eva. “Hoje, ele está doente e, às vezes, meu filho busca alguns remédios para o caseiro dele vir pegar.”

Claudio Ferreira, que mora há oito meses com Trevisan, busca os mantimentos como água e comida em Maquiné. Uma vez por mês, ele o leva para cortar o cabelo e receber a aposentadoria. Quem paga o salário de Claudio e os medicamentos é a ex-esposa de Trevisan, que não o visita muito, mas que conversa pelo menos uma vez por mês com Eva por telefone. A mulher, que mora no município de Rainha do Mar, teve uma filha com ele, que também o vê pouco. A ex-esposa não quis conceder entrevista, por acreditar que a reportagem pudesse interferir no processo judicial pela posse da ilha.



Os primeiros moradores

Assim como Trevisan chegou a formar uma família, a ilha do Pontal também “teve” uma. O mais antigo morador do local que se teve notícia foi Otacílio Justino da Rosa. Por mais de 40 anos, o pescador viveu e criou sete filhos na lagoa. A terceira filha dele, Edite Rosalina Eloy, é a única que voltou a morar nas redondezas de Prainha.

“Não havia luz elétrica, as casas eram de pau a pique e dormíamos em camas de tarimba, um tipo de estrado feito de pau e costurado com palha de milho”, explica Edite entrelaçando os dedos das mãos. “E os travesseiros eram de macela.” Plantavam diversos alimentos, entre eles melancia, melão, moranga, batata e aipim. Os homens da família pescavam traíra, bagre, viola, roncador e outros peixes. Tudo que produziam não era apenas para o sustento, mas principalmente para vender em Capão da Canoa.

Apesar do isolamento que a ilha aparenta, os sete filhos de Otacílio frequentavam a escola e se relacionavam normalmente com a vizinhança. Aos 12 anos, Edite se mudou da terra natal para o Passo do Feijó, em Alvorada, onde morou com a irmã até completar os estudos. Virou empregada doméstica na Capital e se casou com um torneiro mecânico da antiga empresa Royal. Há dez anos, quando se aposentaram, vieram para a região.

“Otacílio vendeu para um sujeito de Esteio, dono de um moinho de trigo, que pagou 10 mil réis pela ilha”, esbraveja o marido dentro de casa. O gigante Bira surge na porta com olhos apertados e barba branca de papai Noel. Ubirajara Fragoso se recorda que o sogro pagava um tipo de imposto à prefeitura de Osório pela posse do terreno. Além do mais, Otacílio já não tinha os filhos por perto e estava começando a adoecer. Com 7 mil réis comprou alguns hectares ali por perto e o restante usou para construir uma nova moradia.


Os Nunes

“Meu avô dizia que esta ponta pertencia aos Nunes, nossos antepassados”, esclarece o funcionário público e morador de Prainha Paulo Rech da Silveira. A história da família Nunes com o Pontal remonta ao início do século 19.  Em 15 de fevereiro de 1819, por meio de uma Carta de Título de Terras, o Governador e capitão general da capitania de São Pedro, Don José Castel-Branco, concedeu a Pedro de Borba uma ilha com “cinquenta braças de frente e cem de fundos” na borda da Lagoa dos Quadros, denominada Casa de Telha. Pedro teve uma filha chamada Florisbela Maria da Rosa, que se casou com José Nunes da Silveira; avós de Fermiano Nunes da Silveira, avô de Paulo.

“Trevisan apareceu na casa de meu avô pedindo para habitar a ilha em 1980, quando eu tinha uns 15 anos”, recorda-se Paulo. Fermiano permitiu, mas com a condição de que seu filho Manoel, pai de Paulo, fosse junto com ele. Manuel, ou Memelo, como era conhecido, passou a viver em tempo integral na ilha e visitava a família apenas duas vezes por semana. Ajudou Trevisan a construir e criar animais durante 14 anos. “Quando ele saiu de lá, passaram-se uns dois meses e teve um infarto, aos 68 anos”, lamenta Paulo. Trevisan restou.


O nudismo

Egon Birlem era o típico prefeito polêmico. Havia recém entrado na prefeitura e fazia uma campanha exaustiva de promoção do novo município: Capão da Canoa. Foi quando, nos idos de 1984, um vereador do município comentou com ele que um veranista de Xangri-Lá, praia vizinha, havia comprado uma ilha na lagoa. Birlem se perguntou: “Uma ilha nos Quadros?”

O comprador era o mesmo produtor de trigo de Esteio relatado por Ubirajara. “Mas nunca chegou a visitá-la direito, parece que uma cobra quase o atacou uma vez e, então, não quis mais saber”, lembra o ex-prefeito. O esteense fez um acordo com a Câmara de Vereadores de Capão, por meio de documento que cedia a ilha para o município. Para um sujeito ambicioso como Birlem, descobrir um terreno lacustre de sete hectares era um achado; porém, mal sabia que a ilha tinha dono.

Nessa época, Capão estava sob os holofotes da imprensa gaúcha, e nem sempre por fatos positivos. Era a primeira temporada em que um surfista morria afogado em uma rede de pesca no mar. A prefeitura teve de baixar um decreto às pressas para dividir a praia em áreas separadas para pesca, banho e surfe.

Um dia, o colunista social de um jornal diário fez uma visita ao gabinete do prefeito, com duas veranistas que queriam “trocar uma ideia” com ele. “Prefeito, já que agora você está demarcando áreas para atividades específicas na praia, nos gostaríamos de saber se não teria como fazer uma área para a prática de topless?”, questionaram as duas garotas.  Birlem chegou a pensar, mas respondeu na hora que “a sociedade ainda não estava pronta para isso”. Porém, deixou escapar: “Existe uma ilha que estamos estudando, que talvez um dia possa ser uma área para isso aí... Como é mesmo, naturismo, nudismo?”.

Daquele encontro, surgiram os boatos e as manchetes: “Prefeito de Capão quer fazer ilha de nudismo na lagoa dos Quadros”. Egon não se arrepende do que fez. O projeto nunca existiu, mas a boataria foi nacional. Naturistas de todo o Brasil queriam saber que ilha era aquela que um político gaúcho queria promover.

Os moradores da Prainha acreditam que essa polêmica tenha tirado o sossego de Trevisan. Uma vez que o prefeito tentou levar a imprensa diversas vezes à ilha, Trevisan tinha motivos para temer ser expulso de lá, então, decidiu entrar com processo de usucapião do terreno. O procurador geral do município da época, Humberto Lauro Ramos, é convicto de que a ilha não pode pertencer a Benjamin. A partir da Constituição de 1967, as ilhas não pertencentes à União passaram a integrar o patrimônio dos Estados-membros, fato que inviabiliza a aquisição da propriedade por usucapião. Após 12 anos de trâmites, sai um veredito. Em 8 de agosto de 1996,  o jornal Zero Hora publicava: “Ilha do Pontal pertence ao Estado”.

No entanto, no relatório de apelação a reexame do caso, em 2005, fica claro no voto do relator e Desembargador Guinther Spode que a ilha do Pontal não sofre os efeitos da carta de 67, por ser propriedade privada desde os idos de 1819, e não passou a pertencer ao Estado. O processo está arquivado e aguarda novo reexame. Os mandados de reintegração de posse chegaram a ser retirados, e Benjamin Trevisan segue vivendo até hoje na ilha. Tende a sair cada vez menos por seu estado de saúde. Trevisan só quer descansar em paz os dias que lhe restam. Nenhum homem é uma ilha, mas talvez Trevisan seja.

*Reportagem publica na Revista Experiência Famecos-PUCRS (Julho 2012), produzido na disciplina de Produção e Redação em Revista, ministrada pelos professores Vitor Necchi, Luiz Adolfo Lino de Souza e Flavia de Quadros.

Confira abaixo a versão imprensa da reportagem: