Quando o editor ouvira a respeito do caso, me chamou em sua sala para discutir novamente as minhas folgas: “Tem um boato rolando aí de um louco que anda contando umas histórias sobre ressurreições”, e antes que eu pudesse interrompê-lo, o telefone toca. Ele atende e emenda “Mountparnasse, é no boulevard Mountparnasse. Alô!”. Era sexta-feira e eu precisava daquela folga. Seria o quarto final de semana seguido de plantão. Ele não ia me poupar mesmo. Uma pauta furada daquelas ainda... Bateu o telefone e me olhou:
– Estamos certo, então? Quero domingo na minha mesa.
Fui atrás do tal homem que andava assustando as pessoas com as tais histórias. Eu não sabia muito sobre aquele papo, mas sabia que os parisienses sempre mantiveram curiosidades sobre a morte e que um editor de jornal popular, no qual eu trabalhava, não iria deixar passar essa bela história.
Cheguei à casa desse sujeito antes do meio-dia. Ficava na rue Vavin, que ligava o boulevard Mountparnasse com jardim Luxembourg. Era um senhor de meia idade e, ao contrário do que eu pensava, era bem lúcido. Contou-me uma história que seu pai havia vivido e lhe contará quando era criança. “Uma manhã meu avô estava passeando aqui perto mesmo, no boulevard e viu um homem miúdo caído no chão. Vestia um terno bonito, mas estava muito sujo e, visivelmente desfigurado”, olhou para mim com estranheza e continuou, “meu pai sempre foi uma pessoa caridosa, e vendo-o naquele estado, juntou-o para sua casa. Aqui nessa casa”.
Aquilo me reanimara. Vendo que eu me mostrava interessado, continuou: “Meu pai manteve o homem durante umas três semanas. Ele se chamava Olivier Bécaille, e pelo que contara a meu pai, tinha sido enterrado vivo”. Bécaille, Bécaille, Bécaille, de onde eu conhecia esse nome... “Era casado, mas não me lembro direito do nome da moça. Era bem mais nova que Olivier”, pensava junto comigo. “Mas ele é parisiense?”, perguntei, “Não, não, esqueci de dizer, ele era de Guérande, perto de Nantes, Loire-Atlantique, e havia recém chegado a Paris”.
A conversa se estendera até o meio da tarde e a história uma forma muito convincente e inspiradora. Olivier Bécaille havia sido enterrado vivo. A história do pai me encheu a cabeça, mesmo com poucos detalhes, fui atrás de outras fontes. Contara-me que o casal havia ficado em um hotel na rue Dauphine. Fui até lá, e realmente havia registros do casal. Olivier e Marguerite Bécaille ficaram três dias em um apartamento que tinha uma vista para a rua. Os donos contaram que aquele casal teve um destino trágico e que aquilo havia perdurado na história do hotel.
A conversa se estendera até o meio da tarde e a história uma forma muito convincente e inspiradora. Olivier Bécaille havia sido enterrado vivo. A história do pai me encheu a cabeça, mesmo com poucos detalhes, fui atrás de outras fontes. Contara-me que o casal havia ficado em um hotel na rue Dauphine. Fui até lá, e realmente havia registros do casal. Olivier e Marguerite Bécaille ficaram três dias em um apartamento que tinha uma vista para a rua. Os donos contaram que aquele casal teve um destino trágico e que aquilo havia perdurado na história do hotel.
– Ele foi enterrado no Mountparnasse, – murmurou uma senhora – e a moça casou-se com o senhor Simoneau.
– Simoneau? Ele também ficara hospedado aqui? – perguntei.
– Sim! Eu tinha uns nove para dez anos e me lembro bem. Era um rapaz belo, vigoroso e muito alto...
– Vamos logo, mãe! – gritou uma moça do lado de fora do hotel.
– Bem, preciso ir – a senhora acenou e saindo apressada.
– Quem é ela? – perguntei à dona.
– É a Sra. Gabin, mas pode chamá-la de Dedé. – disse a moça – Ela mora aí perto.
Aquilo foi um estalo. Dedé era a filha da Sra. Gabin, vizinha do casal na época. A mãe de Dedé foi a primeira pessoa que viu Olivier morto depois da esposa. Era viúva também e sabia bem o que Marguerite estava passando naquele momento.
Senti que precisava ir ao cemitério de Mountparnasse ver aquela tumba. No entanto, nas sextas-feiras o cemitério recebia muitos turistas em razão dos artistas que jaziam ali. Charles Baudelaire, Jean-Paul Sartre, Julio Cortázar... eram vários, e eu não podia perder esse tempo em filas e burocracias.
Parei para pensar nas pequenas possibilidades de Olivier ainda estar vivo. Segundo o relato do filho do senhor que apanhou Bécaille na rua, Olivier poderia muito bem ainda estar rodando por aí, velho e moribundo. Olivier, que vinha de Guérande no oeste da França, havia contado ao homem caridoso que morrera às seis horas da manhã de um sábado, mas continuara a ouvir tudo que passava no quarto. Chegou a cogitar que aquilo fosse aquela doença de catalepsia que ouvira falar e quando criança tivera síncopes longas. Porém, no instante em que não sentira mais vozes e sentia apenas barulho de um balançar, vendo-se dentro de um caixão, começara a ter pesadelos. Olivier viu e passou por o que poderia ter chamado nitidamente de morte e ressurreição. Despertou e conseguiu sair da cova. Andou até a rua e despencou na calçada de Mountparnasse. Marguerite já estava muito longe. Passar algum tempo, certamente. Ninguém quis mais saber de Olivier Bécaille.
No final, a matéria não saiu, ninguém iria acreditar numa historinha de amor.
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