Fotografia tirada pelo autor do texto durante o segundo semestre de 2009, período em que estagiara na Secretaria Estadual da Educação do Rio Grande do Sul – Brasil.
Assisto-a pelo reflexo do computador. É simpática de mais perto, sempre imprevisível, sem escrúpulos. Olha-se longínqua, sem vergonhas, sem desastres, sem imperfeições. Procura-as, mas não as encontra. Mira-se a barriga, mas não vê saliência alguma. Prende o cabelo, vira o passo em um toque firme, me insulta a escrever desesperadamente. Vira-se na concentração das outras servidoras, fazendo uma vista panorâmica sobre o setor vizinho, quase uma espiã, para mim, uma benção, uma viajante deslumbrada com o terreno desconhecido, uma singela moça perdida pedindo informação. Equilibra-se em um pé só, fazendo cara de sono sem que as servidoras veteranas reparem, mas que apenas que eu repare. Em um gesto de delicadeza, observa as minhas costas com coragem.
Tal vista é superior, que cria um medo de retornar ao cumprimento por olhares. Ela é a mocidade em carne e osso, uma jovem e brilhante humana sentindo o calor da vida em plena flor da idade, possibilitando que eu escreva as frases mais cafonas deste livro. Parei por alguns minutos. Segundos, talvez. Ela tinha passado, e eu tinha respirado fundo para sobreviver àquele furor interno que me causara. Eu a procurava todo momento por cima dos armários, e enquanto escrevia esta frase, ela passara novamente, em um silêncio que só ela sabia fazer. Passou pela minha direita, paralisando minha digitação, contornando por trás e em segundos já estava voltando pelo mesmo caminho. Ela era uma majestade fora do trono, passava e as pessoas simplesmente paravam. E eu estava pronto. Só restava me ajoelhar.
Aquele dia, eu decidi não ir almoçar. Queria observá-la mais, perder a fome a solucionar minhas vontades de escrevê-la sem pausas e sem erros de descrição. Não me importava de ficar mais tempo dentro da secretaria, se fosse para o bem de meu texto. Estava bem com aquele café morno e com os salgadinhos velhos. Era uma segunda-feira, começo de semana. Uma semana que eu pensava ser a melhor do mês, ou talvez não.
Continuei sentado em frente ao computador, tentando escrever alguma frase criativa para meu livro. Eu estava sem falas e com fome. Decidi desligar o computador e caminhar em direção a Borges de Medeiros, a procura de um restaurante barato para o desjejum. Atravessei o Centro Administrativo em passos curtos e lentos, pois algo me dizia que eu iria encontrá-la se me virasse de súbito, mas já não era mais tempo. Meu entusiasmo se perdeu.
1 comentários:
Esta foto é muito boa.
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