O que eu queria mesmo era trabalhar na mesma profissão de Balzac, somente por saber que ele escrevia para sobreviver. Ganhar por linha digitada. É um sonho meu. Parece assustador, e por certo ponto de vista é loucura, mas é bem o que eu queria fazer.
Não é ver o meu nome estampado logo abaixo do texto, mas é por uma questão de musculatora dos dedos. O exercício de precisar bater a ponte deles contra os quadradinhos escuros com letras brancas em caixa alta. Não sei fazer descrições, mas me arrisco em tentar. Queria fazer melhor, visto o tempo que perco observando os objetos. Queria poder, também, não sentir aquela dor no pescoço depois de ficar tanto tempo com a cabeça abaixada sobre o teclado. Não me acostumeia ainda em apenas digitar sem olhar para as teclas. Parece dificil, e tenho medo de arriscar esse tipo de ação. Não é questão de perder ritmo! Até porque não há. É questão de precisar apagar. Não quero perder nada que me passa pelos dedos, afinal, isso que passa por eles, não são palavras pensadas com a cabeça, são pensadas com as pontas dos próprios dedos, a cabeça é atrasada, só me serve para verificar erros decorrentes da velocidade da datilografia.
Outra coisa que tento sempre me livrar, é o tempo de cada parágrafo. Involuntariamente, tenho vontade de pular para um novo, justamente, quando não é o caso. Agora que escrevi isso, sinto mais livre para preparar meu salto olímpico para outro parágrafo.
As bobagens que faço quando não tenho muito o que dizer na secretaria, são bobagens em tamanhos descomunais. Nessa descrição, exatamente, repito, por que não sei descrever. Quem dera querer saber ESCREVER, mas isso já é outro assunto que poderia deixar para outro momento, no entanto, tenho tempo:
A questão de descrever algo é relativamente comum para qualquer escritor ou aspirante. No momento em que se fixa em uma fórmula, como minha irmã me já me dizia para fazer, se tem uma grande missão para cumprir. Escrever direito. E isso me diz respeito a correções e as simultâneas perdas de assunto que me ocorrem. Estou falando sobre Godard e resolvo pular para o Sr. Eliot. O que uma coisa tem a ver com a outra? Nada, é claro. Mas porque não teria? Dentro de várias disciplinas aprendi a resolver na faculdade de jornalismo um dilema incasável: Porque Godard não tem a ver com Eliot? Ao mesmo tempo, tento colocar, frustradamente, uma digressão que meu professor de fotojornalismo me fez refletir certa vez: "Quem diz o que é uma notícia, pessoal? Vocês! Tudo é pauta! Pois são vocês que vão criá-las!" - E então tento dizer: Godard é para críticos (roubando a frase de Bergman), e Eliot... bem, Eliot é um reaça!
O que nota-se nessa digressão? Semiótica? Não! Nota-se o que de menos valioso interessa a todos que adoram os filmes de Jean-Luc Godard, ou dos poemas e ensáios de T. S. Eliot, a crítica sem argumentos. Parece absurdo, mas o que mais me interessa nesses dois (Godard e Eliot) é que eles me entendem. E, me entender, já basta para que eu venere-os assim como venerei a Deus em minha época cristã, até os 13 anos de idade.
Voltando ao foco sobre descrever e escrever, minha perspectiva para novas visões de mundo não dependem de descrições. Eu queria poder dizer para todos como gosto do jeito que Quentin Tarantino pensa. No entanto, não me basta descrevê-lo, eu preciso criticá-lo para que os outros o percebem. Preciso dizer que a cena do tiroteio na taberna, em Bastárdos Inglórios, é a mais bela e realista aquisição cinematográfica de Tarantino para a humanidade. E mesmo assim, isso não basta. Pois, a veracidade disso viria mesmo, com a arte que eu fosse fazer. A arte que eu tentaria estabelecer com as técnicas que existem nesse círculo crítico que eu pertenço. Logo, descrever é um desafio. Exige-me um sentimento de honestidade que muitas vezes não tenho.
Mesmo assim gostaria de viver escrevendo.
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