Assisto-a pelo reflexo do computador, é simpática de mais perto, sempre imprevisível, sem escrúpulos. Olha-se longínqua, sem vergonhas, sem desastres, sem imperfeições. Procura elas, mas não encontra. Mira-se a barriga, mas não vê saliencia alguma. Prende o cabelo, vira o passo em um toque firme, me insulta para escrever desesperadamente. Vira-se na concentração das outras servidoras, fazendo uma vista panorâmica sobre o setor vizinho, quase uma espiã, para mim, uma benção, uma viajante deslumbrada com o terreno desconhecido, uma singela moça perdida pedindo informação. Equilabra-se em um pé só e faz cara de sono sem as servidoras veteranas reparem, fazendo apenas que eu repare, em um gesto de delicadeza, observa as minhas costas com coragem. Tal vista é superior, que cria um medo de retornar o cumprimento por olhares. Ela é a mocidade em carne e osso, uma jovem e brilhante humana sentindo o calor da vida em plena flor da idade, possibilitando que eu escreva as frases mais cafonas deste livro. Parei por alguns minutos. Segundos, talvez. Ela tinha passado, e eu tinha respirado fundo para sobreviver àquele furor interno que me causara. Eu a procurava toda a hora por cima dos armários, e enquanto escrevia esta frase, ela passara novamente, em um silêncio que só ela sabia fazer. Passou pela minha direita, paralisando minha digitação, contornando por trás e em segundos já estava voltando pelo mesmo caminho. Ela era uma majestade fora do trono, passava e as pessoas simplesmente paravam. E eu estava pronto. Só restava, me ajoelhar.
Aquele dia, eu decidi não ir almoçar. Queria observá-la mais, perder a fome a solucionar minhas vontades de escreve-la sem pausas e sem erros de descrição. Não me importava de ficar mais tempo dentro da secretaria, se fosse para o bem de meu texto. Eu estava bem com aquele café morno, e com os salgadinhos velhos. Era uma segunda-feira, começo de semana. Uma semana que talvez fosse a melhor do mês, ou não, e eu continuava sentado em frente ao computador, tentando escrever alguma frase criativa para meu livro. Eu estava sem falas e com fome. Decidi desligar o computador e caminhar para a Borges, a procura de um restaurante barato para o desjejum. Atravessei o centro administrativo a passos curtos e devagares, algo me dizia que eu iria encontrá-la se me virasse de subito, mas não tive este deleite.
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